Circus

Ontem à noite fui ao circo. Que é como quem diz, a uma discoteca onde a Paris Hilton fazia uma festa. Tapete vermelho, paparazzi, reforço de segurança, programa de televisão, holofotes, luzes especiais e várias pessoas a correr de um lado para o outro com cara de quem acabou de receber um aviso de atentado com bomba.
A casa estava cheia. Ela fazia-se esperar. À uma da manha eu não queria esperar mais. Primeiro, porque já satisfiz a minha curiosidade voyeurista quando a vislumbrei no padock do Circuito de motos da Catalunha. Segundo, porque a Paris nunca abdicaria de dormir para me ver, porque é que eu iria diminuir a prioridade das minhas 8 horas de sono para vê-la a ela? Porque o meu namorado queria tirar-lhe uma foto. Ora quando o meu namorado quer ficar numa festa para ver e tirar fotos com outra rapariga, eu tenho duas opções: deixá-lo pendurado, apanhar um táxi e ir embora ou acompanhá-lo na espera, com as devidas trombas. Escolhi a primeira opção. Por azar, tinha deixado as chaves de casa no carro dele. Erro crasso. Nunca se deixam as chaves de casa no carro do namorado porque nunca se sabe quando nos vamos chatear com ele. Tive de me resignar em ficar de trombas.
Um pouco antes das duas, a socialite mais mediática do mundo lá deu o ar de sua graça. Entrou no seu privado, exactamente o mesmo que há 4 meses atrás recebia a minha festa de aniversário. Só que eu não tinha um gorila de cada lado a empurrar a multidão que se exprimia que nem espargos em lata para conseguir aproximar o smart phone ao máximo da cara dela. Fotos que, com certeza, já estarão no facebook.
Se Nossa Senhora de Fátima tivesse feito uma aparição ali, naquele momento, teria sido vaiada pelo público e escorraçada pelos gorilas.
Havia tantos telemóveis no ar que parecia um concerto do Rock in Rio. Sem contar as câmaras dos fotógrafos e o rapaz que fazia acrobacias ao fundo, pendurado na máquina de luzes. Valha-nos Deus se a Paris sai com má iluminação na foto para a Hola!
Levantei-me, impulsionada por esta alienação que as celebridades provocam em nós, reles mortais. Só vi cabeças (e telemóveis). Voltei a sentar-me. Dizia-me uma amiga que ela levava um vestido de estampado animal. Muito interessante mas eu vou à casa de banho e vamos embora. E ele, que já a tinha visto e também já tinha visto a impossibilidade de tirar uma foto com ela, concordou.
A duras penas cruzei a multidão hipnotizada. Enquanto a minha amiga pedia uma água, arrumei-me à espera num cantinho ameno. Daí via-se a zona de privados com as pessoas praticamente umas em cima das outras. Dezenas de pessoas que daqui a muitos anos contarão aos seus netos que um dia estiveram numa festa na zona vip ao lado do privado da Paris Hilton. E os netos dirão: quem é a Paris Hilton?
Tão sossegada estava eu no meu cantinho quando sucedeu aquele momento de filme de Hollywood em que o galã da festa se afasta da multidão, cansado de tanta gente e tanta confusão, e tropeça numa rapariga simplória e pouco receptiva a toda a azáfama. Como sou rapariga de pouca sorte, em vez de um galã de Hollywood foi a miss Hilton quem quase me caiu em cima. Resolveu saltar do palanque da zona vip, justamente para aquele cantinho tão bom onde eu estava. Vi um vestido leopardo a esvoaçar e afastei-me impulsivamente. Se a vedeta tropeçasse ou partisse uma perna ainda ia sobrar para mim. É que já não me faltava mais nada.
Os seguranças e a entourage vieram um nanosegundo em seguida, junto com a multidão e os seus smart phones que engoliram o meu cantinho. Mas ela não estava nem aí. Queixava-se, muito indignada, que o Dj não estava a pôr as músicas que ela queria. E fez questão de queixar-se ao ouvido do Dj. É mais baixa que eu. Mais rica, mais loira e mais magra. Mais bonita ao vivo que nas fotos ou na tv. Extremamente simpática e sorridente. Ainda que seja impossível determinar se tamanha simpatia era genuína ou se eram efeitos secundários do champanhe.
O que é seguro afirmar é que não houve nada disto quando veio cá o Hugh Grant, nem quando vierem os jogadores do Barça, nem quando veio o George Michael, nem quando veio a equipa inteira dos Lakers. Não digo o Kobe ou o Pau, digo a equipa completa que, pela lógica, tem bastante mais peso que uma loira magrinha com menos de 1.74m. Nem um paparazzi.
Portanto, a noite de ontem foi um circo. Sim. Foi uma palhaçada. Mas de tonta e palhaça a Paris Hilton não tem nada.

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