Emigração:sim ou não?

Se há tema que eu domino é o da emigração. Vem de família, o meu pai também é emigrante. Eu, aos 3 anos migrei de Lisboa para o Algarve, aos 18 do Algarve para Lisboa, aos 21 vivi em Itália e em Sao Paulo e desde os 22 que vivo em Barcelona. Tenho agora 25 anos. E uma amiga que emigrou para a Turquia, outra que emigrou para Macau, uma que emigrou para o Hawai, outra que emigrou para o Brasil, uma que emigrou para Londres, outra que emigrou para a Escócia, uma que emigrou para Paris, outra que emigrou para La Coruña , uma que emigrou para a Alemanha, outra que emigrou para a Índia, uma que emigrou para a Austrália e muitas que emigraram para Barcelona e só por isso as conheci. Tantos destinos para dizer que não me choca que os membros do governo aconselhem a emigração. Claro que seria melhor se dissessem que Portugal vai fazer tudo para reter os seus talentos, apostar pelos empreendedores e criar programas de apoio ao ensino, à formação e à investigação. Seria fantástico. E também seria uma mentira escabrosa. Se emigrar de Portugal para conseguir melhores condições laborais é uma opção porque é que os governantes não o hão de dizer? Sugerir a emigração não implica que quem ficar no país se vai dar mal. Sugerir a emigração não é dizer que Portugal é um caso perdido. É enfrentar a realidade de que é um caso complicado, mais complicado que outros.
Eu não emigrei por falta de trabalho, nem por falta de liberdade ou de paz. Eu emigrei por falta de felicidade. Por falta de contentamento. Queria mais do que aquele trabalho repetitivo,de horário e roupas clássicas, dentro da minha área e com certo prestígio. Não, não era nada mau. Sim, foi uma loucura deixá-lo por nada em concreto. Mas desde que pus o pé no Aeroporto de El Prat que sou mais feliz. Em 2 meses consegui um trabalho, primeiro em part-time e com parcas condições, agora em full time e com condições longe de excelentes, mas pelo menos melhores que as que tinha em Lisboa. E as perspectivas aparentam sorrir por detrás do 31 de Dezembro. Em um ano e meio terminei o mestrado na Universidade Autónoma de Barcelona, mestrado esse que foi o argumento decisivo para o movimento migratório. O qual se continua a insinuar no forro dos meus planos rumo a outros destinos. É evidente, eu sou pró emigração. Ao contrário do que muitas vozes têm aclamado, emigrar não é desistir de uma luta, nem de um país, nem de uma família, nem de uns amigos. Emigrar não é fugir nem ser covarde. Emigrar é estender a luta a outros limites, abrir a conquista a mais possibilidades e crescer. Crescer muito. Porque emigrar pode ser uma imensidão coisas, menos fácil. São muitas noites de solidão, muitos dias de saudade, muitos minutos de memórias e mais ainda de desespero, desamparo, de lágrimas até. Momentos exasperantes em que o pensamento se reduz a um único desejo: “Eu quero a minha maaaaae!”. Emigrar não é a solução para nenhum problema. Emigrar é ter de resolver um novo problema.Vários novos problemas que se afiguram em outras línguas, a outras horas, com nomes diferentes, temperaturas dissidentes, comidas estranhas, prefixos e códigos postais que escapam ao nosso domínio cognitivo, modas que não abrangem as nossas roupas, burocracias que se não nos matam nos enlouquecem, piadas que não entendemos, costumes e festas que não celebramos, caminhos que não sabemos... Mas quem é que não tem problemas, seja lá onde for? Os problemas são uma espécie de cultura universal. Portanto, emigrar não é fácil, desenganem-se, mas é bom e recomenda-se.
Agora também vos digo uma coisa, a vontade de chegar a casa esta Sexta-feira para passar o Natal, a vontade de estar com os meus pais e com a minha irmã, com a minha família, com as minhas amigas e amigos, a vontade de comer aquele bacalhau com natas, de dormir na minha cama, de caminhar pela calçada, de ver as luzes da ponte a enfeitar o Tejo, essa vontade é imensa. Essa vontade é o maior sonho do emigrante.
Por isso aproveitem bem, vocês que ainda não se foram embora.

Comentários

Ines disse…
gostei deste :)

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