O exame

“As acreditações só começam às 12.30”. Ainda faltava uma hora. Optámos por deambular pela zona Universitária a ao rumo do ar frio de Madrid, até encontrar um café. Estava toda a gente a tomar o pequeno-almoço. Normal. Às 11.30 da manha uma salada de queijo de cabra não é exatamente o que mais apetece. Mas teve que ser, considerando que a próxima ingestão de alimentos seria, na melhor das hipóteses, por volta das 7 da tarde. A cozinha lá fez o favor de abrir só para mim que, coitadinha, ia estar 5 horas fechada num exame.
Quando voltámos à escola diplomática já havia mais gente assomada aos portões, aproveitando os últimos minutos de sol que teria naquele dia, por sinal esplêndido. A esmagadora maioria eram raparigas. E notava-se que a espera não antecedia um casting de modelos, se é que me entendem. A imagem não é, definitivamente, um requisito para trabalhar nas Nações Unidas.
Cruzei o portão e avancei para o controlo de segurança, a multidão segiu no meu encalço. Ao que parece estavam todos à espera que alguém desse o primeiro passo, literalmente. Daí fui para a o sofá da cafetaria e do sofá para o segundo andar onde pediam a documentação e confiscavam os telemóveis.
“Desculpe, o seu apelido qual é?”
“Schütz”
“Mas não é o primeiro?” (Pois não, não está a ver que é o último?)
“Não, em Portugal é ao contrário, o nome do pai é o do fim.” Se por cada vez que me pergutam isto ganhasse 1€, este fim de ano ia passá-lo ao Rio de Janeiro em hotel 5 estrelas.
A sala era amplia, as mesas agrupadas de 3 em 3, reservadas de acordo com a especialidade de cada um: Public Information, Humanitarian Affairs, Stadistics, Administration. Não havia especialidades iguais na mesma fila, para evitar copianços. Duas representantes das Nações Unidas, senhoras francesas de idade avançada com conhecimentos reduzidos de inglês e nulos de espanhol, encarregavam-se de ter toda a gente sentada no lugar certo e proceder com o exame. Os auxiliares da Escola Diplomática de Madrid, claramente num reboliço excitado de quem finalmente tem algo importante que fazer, ajudavam. Alguns mais nervosos que os próprios alunos, afinal não é todos os dias que se colabora com as Nações Unidas. Ainda que seja só a distribuir e contar folhas. Tarefas que mais tarde despoletaram um sonante “Joder!” (Caraçaaas!) de uma auxiliar espanhola, que se encontrava em grande dificuldade para gerir os cadernos de perguntas que lhe haviam sido atribuídos. Os laranja. Eram os da minha especialidade. E eu que queria tanto os cor de rosa!
Às 12.40 estava sentada no canto esquerdo da terceira fila. O exame só poderia começar às duas e só começou às 2.40. Portanto tive tempo de sobra para observar a brancura das paredes, o ronronar das árvores do outro lado da janela e os candidatos que iam compondo a sala, quase todos com o mesmo estilo nerd-intelectual. Os piores eram os de estatística, os mais apresentáveis os de public information. Desculpem, é que foram duas horas sentada sem fazer nada, tive que me entreter a pensar em alguma coisa. Às duas menos 20 minutos os exames chegaram, embrulhados em pacotes oficiais. Emoção!
Só que faltavam umas tesouras para abrir os super evlopes confidiciais. E às duas da tarde ainda faltava gente. Apesar das regras dizerem que não seriam admitidos depois das duas, deixaram-nos entrar. A coordenadora francesa enchia os pulmões de ar para iniciar a leitura do seu discurso quando um dos auxiliares disse que ainda não, que ainda vinha mais um candidato a subir. As senhoras entraram em pânico porque oh meu deus, onde é que o iam sentar que já não havia mais mesas! Iniciaram um processo de mobilização de mesas, interrompido pelo mesmo auxiliar “Falso alarme. Era só um funcionário a subir as escadas”.
As francesas respiraram de alívio. A senhora entoou o discurso em inglês e depois em francês, porque duas candidatas afirmaram não estar satisfeitas com as explicações apenas em inglês. Então ouvimos todas as coordenadas em inglês e depois tudo outra vez em francês, e depois havia gente que não tinha lápis para preencher a primeira folha e gente que já a tinha preenchido a caneta - “Catastrrrophe!”disse a coordenadora.
O relógio que adornava a parece marcava as 2.40 quando o exame começou. Primeiro o resumo, depois as 10 perguntas de international affairs, seguidas de 2 essays e 8 perguntas práticas. Sempre em inglês.
Contra todos os prognósticos, tive tempo não só para responder ao exame por completo como também para reler as respostas e levantar a mão para ser escoltada até a casa de banho, não fosse eu sacar umas cábulas de dentro da sanita. Ou de debaixo do mecanismo do autoclismo.
Estava preparada para perguntas mais difíceis, confesso. O exame foi surpreendentemente acessível. Se inglês fosse aminha língua materna até teria possibilidades de ser selecionada. Mas relendo as respostas apercebi-me de que embora os conteúdos não estivessem mal, a estrutura e a forma não estavam brilhantes, nem sequer muito consistentes. Quando o tempo acabou ainda nos retiveram mais 20 minutos para contagem de exames, folhas de rascunho e discurso. Em francês e em inglês. Saí da sala às 7.30, praticamente 7 horas depois de ter entrado. Lá fora a noite já havia cerrado o dia há bastante tempo. Doía-me a cabeça, as costas e a barriga, de fome. Quase caí a descer as escadas, numa clara manifestação de falta de açúcares, necessidade suprida posteriormente com uma cookie de chocolate do Starbucks.
Mas estava contente, afinal respondi a tudo pá!
Os resultados só saem em Abril de 2012.
Depois logo vos conto.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O síndrome de Bridget Jones

Já cá estou outra vez, desculpem a demora...

Um fim de ano especial, com festa no Palácio Real!