O lago dos cisnes

Quando um rapaz aficionado às corridas de fórmula 1, aos carros topo de gama e a sistemas e aplicações informáticas, nos surpreende com entradas para o Lago dos Cisnes, tem de ser amor.
Ele tateou a zona previamente. Perguntou se eu tinha segunda-feira à noite livre ou se queria ficar a estudar. Não, não queria ficar a estudar, sim, sim estava livre. Mas para quê?
Ah meu bem, isso ele não disse.
Surpresa!
Pensei logo num teatro ou num bailado, mas ele conseguiu despistar-me e convencer-me que íamos ver um espetáculo mágico com inspiração de sessões espiritas.
Não fomos. Graças a Deus.
Entrámos num teatro relativamente novo, com assentos no camarote para ver a primeira noite do Lago dos Cisnes by Ballet de Teatro Russo de Moscovo, com bailarinos chineses. É evidente que Companhia de ballet chinês não teria tido o sucesso de ocupação que a Russia aportou a esta primeira noite de show.
Mas assim que a cortina subiu e o bobo da corte começou a girar em pontas com a sua alongada mirada e reduzida dimensão, ele comentou “Muito russo este não é.” Não era, efetivamente. Nem ele, nem mais umas quantas bailarinas, as mais baixinhas. Mas todos juntos encheram o serao com maravilhosos outfits, extenuantes pontas e arrebatadoras piruetas. Daquelas que ficamos tontos só de olhar. Sincronizaçoes quase perfeitas, tirando uma que levou com o pé da que ia à frente na cara, mas disfarçou muito bem. Melhor, assim nao me sentirei tao mal da próxima vez que exibirem lá em casa os vídeos caseiros das minhas soirées de ballet no Conservatório de Faro, onde cada uma de nós tinha, digamos, um ritmo próprio.
Não que seja relevante, mas a bailarina cisne não era chinesa. Era loira. E como toda a gente já deve ter reparado, eu acabo de me dar conta, não há chinesas loiras.
Não ia ao ballet desde que abandonei a modalidade, a malinha rosa da Barbie onde levava as sapatilhas e o maiô de treino e o já famoso Conservatório de Faro. Tinha 11 anos e uma carreira de “pliês” desde os 5.
Uma pena, constato agora. Que bom seria se hoje em dia conseguisse tocar com as mãos no chão, mantendo as pernas juntinhas e esticadas.
Enchi-me de vontade de voltar a saltitar pelo palco com um tutu de arrasar e pensei que se um dia tiver uma filha, vou com certeza impingir-lhe aulas de ballet. O que também me fez pensar em quem é que vai fazer o apanhado no cabelo da miúda. Lembro-me de como a minha mae me penteava, meticulosamente. E de como eu nunca aprendi a fazê-lo. A boa notícia é que ainda estou a tempo.
Ele estava muito incomodado com a posição dos pés dos bailarinos, a qual mantinham mesmo quando estavam parados. “Mas têm que estar sempre assim? Mas porque é que estao sempre assim?” perguntava, desejando que o príncipe se pusesse ali de perna aberta e joelho dobrado. Então eu, cheia de soberbia, expliquei-lhe que havia a primeira, a segunda, a terceira, que era a dos bailarinos, a quarta e a quinta posições para os pés. E que para os braços havia uma posição extra, a quarta cruzada.
Ainda bem que ele não pediu mais explicações porque esta é a única informação técnica que a minha memória reteve dos meus saudosos tempos de mini Pina Bausch (quem me dera)!
Quando os aplausos finais eclodiram, eu bati palmas um pouco decepcionada, confesso. Depois de ver “Black swan” no cinema, estava convencida de que o final do Lago dos Cisnes era trágico. Passei o tempo todo à espera que a loira morresse e vai daí aquilo acaba-me estilo os desenhos animados da Princesa Cisne, felizes para sempre. Enfim...
Ele gostou, gostou muito.
Ou pelo menos isso disse.

Comentários

Camila Ciberi disse…
Ah, minha portuguesa! Quando vier ao Brasil novamente levo-te para as minhas aulas de ballet para matar as saudades!!

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