Pergunta número 1

Nunca fui de colossais nervosismos na hora dos testes ou exames. Tinha que os fazer sim ou sim, era uma etapa entendida como natural no processo educacional. Ia às aulas, prestava atenção ( quase sempre, outras vezes jogávamos ao stop ou ao galo) estudava e sentia-me preparada. Às vezes mais, como nas avaliações de inglês e português, devido ao meu bom relacionamento com idiomas, outras vezes menos, como nas perguntas com números ou todas as cadeiras da minha licenciatura em geral. A licenciatura de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa tem esta capacidade de nos fazer sentir sempre burros. Suponho que seja pela sua seleção de temáticas que não interessam nem ao menino Jesus, imagine-se a mim. Mesmo assim lá passei por esse calvário de exames de sistémicas, semióticas, sociologias filosóficas e textualidades pouco inteligíveis. Nunca tive uma negativa em todo o processo curricular.
Esta semana vou a Madrid fazer um exame que não vou passar. Um exame que me está a dar mais dor de cabeça que os exames nacionais de história e francês juntos. Porque nesses exames eu tinha ido às aulas, tinha um programa, uma bibliografia, apontamentos.
Ora este exame veio com o aviso de um mês de antecedência, sem programa, sem bibliografia, sem aulas nem nenhum tipo de guia ou apoio didático. E tem que ser todo em inglês. Ou em russo, chinês ou árabe. Obviamente descartados. Ou em francês, que não uso desde o tal exame nacional em 2004, portanto descartado está, ou espanhol que uso “a menudo” mas sem grande correção ortográfica porque nunca estudei a língua. Pelo que julgo que 7 anos de inglês e um summer camp intensivo garantem mais estabilidade nas convenções literárias.
Parece-me que o exame mais difícil que fiz até hoje foi o TOEFL. Provavelmente porque a memória já apagou a prova global de físico-química do 9 ano. Eu nunca percebi um pimento, nem sequer uma azeitona, de física ou de química. Mas o TOEFL eram 4 horas seguidas e isso é muito tempo. Pois este novo exame são 4 horas e meia! Quase dá para chegar ao Brasil em avião.
Um resumo de um texto técnico com vocabulário dificilmente decifrável, 10 perguntas diretas, 2 essays de desenvolvimento, com anexos de 20 a 40 páginas e 8 perguntas práticas. Fico sem fôlego só de descrever o formato do exame.
A temática é difícil de definir posto que não há programa. Basicamente pode ser qualquer coisa em qualquer país do mundo,porque as Naçoes Unidas metem o bedelho em tudo. Sim, é um exame para as Naçoes Unidas. Para um posto de Public Information nas Naçoes Unidas.
As duas samples de exame que colocam à disposição dos concorrentes não são assustadoras, são aterrorizantes. É humanamente impossível acabar o exame no tempo previsto e é preciso uma sorte extraordinária para saírem perguntas que eu saiba responder. Li a web das Naçoes Uidas de fio a pavio e fiz 1001 apontamentos. Mas cada click se desenvolve em mais 3 coisas que se multiplicam em mais 10 e por aí afora. Com 1 mês de antecedência, um trabalho full time, um trabalho part-time, tarefas domésticas a executar in solo e a necessidade vital de dormir, digamos que o tempo para estudar foi escasso, no mínimo. E havia tanta coisa para estudar! Tudo! Desde a faixa de gaza ao cultivo de opio no regime talibã, as datas de integração de cada um dos 193 membros na UN e respectivas capitais, a África, o Médio Oriente, os transgénicos, as bioreservas, as armas de destruição massiva, as emissões de gases permitidas, os órgãos, os sub-orgaos, as agências, os programas, os fundos, os embaixadores, os tratados, os objetivos de desenvolvimento do milénio, as leis e até o preenchimento da folha de identificação do exame que vem cheia de bolinhas e códigos, mais parece um cartão do Totoloto. São 40 folhas em total que nos dão para escrever, mais as de rascunho. O exame começa à mesma hora em todo o mundo. Vá, nisso eu tive sorte, os do outro lado têm de se apresentar às 4 da manha. Eu é quarta-feira às duas da tarde. Viajo amanha. Mais que nervosa, estou irritada. Porque me parece impossível, porque não tive aulas nem sei se estudei o que devia, porque ainda não consegui decorar a data de entrada na UN dos 193 membros e as respectivas capitais e porque, na verdade, nem sequer sei a resposta à pergunta mais básica de todas: Porque é que eu, que até tenho um trabalho na minha área, boas perspectivas e o sonho de ser escritora, decidi fazer este exame?
Porquê???

Comentários

i disse…
tenho uma amiga que foi hoje fazer esse exame!

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