Vik Muniz

Uma cópia nunca é só uma cópia. Primeiro, porque uma cópia é uma coisa e uma coisa por si mesma é um paradoxo de coisas, dependendo do ponto de vista.
“Onde Sancho vê moinhos, D. Quixote vê gigantes.” Vê moinhos? São moinhos. Vê gigantes? São gigantes. E assim se conjuga a realidade, no reflexo imperfeito da perspectiva. Aos olhos de quem vê a cópia, somam-se os olhos de quem a faz. As memórias que guardaram e recordam. As memórias que guardaram sem saber. Os sentimentos que fazem piscar as pestanas, as intenções das órbitas e todas essas coisas poucas concretas que compõem a inspiração. Trocando por miúdos, se eu copiar a Guernica, nao vai ser igual à do Picasso. Nem igual a nenhuma outra. Vai ser A MINHA Guernica - um pedaço de desastre individual. O mundo pula e avança como as bolas nas mãos das crianças e as cópias nas mãos dos artistas. Que não é o meu caso. Tudo isto já foi cientificamente provado por Andy Waroll, mesmo que não tenha lido Cervantes ou Gedeão (e pelos meus professores de Educaçao Visual que nunca me deram 5).
Vai daí o Vik, pegou num pouco de chocolate e manteiga de amendoim e fez a Mona Lisa outra vez.


Com ketchup recriou o próprio Andy Waroll. Umas flores e umas folhas mostram o semblante dos Estados Unidos, versão Inverno e Verão.



Soldadinhos de plástico montam retratos de guerra enquanto diamantes e caviar montam retratos com mais charme mas menos colorido. O sóbrio é sempre chic. Computadores descartados desenham o mapa mundo, o fumos dos aviões é o segredo das nuvens e a sucata a rainha da exposição.



Imagens que passariam desaparecidas, não fosse estarem feitas com havaianas recicladas e pedaços de retrete. Quem disse que a poesia tinha que ser limpa e higiénica? Até uns esparguetes à bolonhesa, uns grãos de areia ou uns fios de arame farpado servem para fazer um quadro.


Quadros que nos enganam e desenganam, que nos dão voltas aos sentidos, que parecem o que não são, que rebentam as escalas e provocam a imaginação. Este tête à tête emana uma relação em que o espectador é ativo, participa na criação daquela coisa, que é qualquer coisa, com a sua interpretação, a sua dúvida, a sua descoberta, a sua contemplação, a sua boca aberta.
Aaahhhhh!
Na guerra e no amor vale tudo.
E na arte também.

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