Escândalo real

A Espanha anda convulsionada. Dizem que é o maior choque a que se enfrenta a casa real. Ainda maior que o Golpe de estado de 1981. Iñaki Undargarin, marido da Infanta Cristina e, portanto, genro do Rei Don Juan Carlos, foi acusado de corrupção e fraude pelo desvio de dinheiro público através de uma instituição sem fins lucrativos, o Instituto Noos, da qual era gestor. Além das contas em paraísos fiscais há o palácio de Pedralbes, residência do casal e filhos na zona mais chique de Barcelona, comprado com dinheiro “sem fins lucrativos”. Um delicioso escândalo que eclodiu que nem uma bomba na Zarzuela. Mas palpita-me a mim, simples plebeia, que era uma bomba relógio cujos tic tacs se faziam ouvir há vários anos entre toda a família real e até aparecerem na televisão não incomodavam a ninguém. Reitero que é uma opinião completamente pessoal fundada em que quando alguém compra um palácio que está fora do seu poder de aquisição, sabe muito bem de onde o dinheiro vem: ou ganhou a lotaria, não foi o caso, ou é dinheiro que não lhe corresponde. Não acredito que a Infanta não soubesse dos affairs ilegais de seu querido cônjuge, como não acredito que sua majestade el Rei não tivesse a mais humilde ideia do que se estava a passar, do que se passou durante vários anos. Será que nunca o convidaram para ir conhecer o palácio de Pedralbes? Será que no Natal lhe ofereciam umas meias da Zara e traziam para a ceia uma lasanha do LIDL para disfarçar? Será que os serviços de informação e proteção que tem ao seu dispor são assim tão incompetentes?
O que será não se sabe. Por agora, o único membro da família real acusado (e já devidamente excomungado) é o senhor Undargarin. Mais detalhes, só depois do julgamento.
O curioso é que isto não me choca. Não tem originalidade nenhuma. É um clichê. Todos os dias em todo o mundo, políticos e empresários desviam dinheiro, lavam dinheiro, envolvem-se em corrupções e esquemas ilegais para ficarem ainda mais ricos. Alguém sabe de um paraíso fiscal que tenha ido à falência? Não, o genro do Rei não é o “único a olhar o céu”.
A mim o que me transcende e revolta mesmo de verdade, é que ainda haja um Rei!
O conceito original de Rei parece-me aterrorizador: o Rei era Deus na Terra, o centro de todas as decisões, a fonte de todas as leis, a decisão de todos os paradigmas e a vontade acima de todas as vontades. Por nada mais que um nascimento com sorte. Muitos reis foram assassinos em série idolatrados e almejados, veja-se Henrique VIII. Felizmente, mais pessoas se deram conta da injustiça moral e social de tal conceito e as monarquias entraram em decadência, desapareceram ou democratizaram-se. Neste último caso, presente em Espanha, a família real é um mero acessório. Cumprem funções de representação dizem, omitindo o valor de ditas funções, cada cêntimo proveniente de dinheiro público, para o qual eles não contribuem graças a esse dogma que se chama a isenção de impostos. Estas pessoas ganham dinheiro do meu dinheiro em quantias que eu não ganharei em toda a minha vida, para atenderem a atos de “representação”. Porque nasceram filhos de reis ou se casaram com eles. Ai mas as Infantas trabalham. Trabalham??? Ah ah ah! Não sei qual das duas situações a mais injusta: se levar uma vida de luxo sem trabalhar, perdão, viver a “representar”, ou se além de alhear o dinheiro público se alheiam também postos de trabalhos, com 5 milhões de desempregados and counting, para fazer de conta que são pessoas normais. Pergunto-me, terão as Infantas feito uma entrevista e passado por um processo de seleção? Terão chefes, objetivos e horários que cumprir? Poupem-me.
Eu que trabalho, pago contas e aluguer sozinha e ingresso menos de 22.000€ por ano passarei a pagar 28% de IRPF (IRS em português). O Rei, que para as minhas considerações não trabalha, que ingressou do estado 8.434.280,00 em 2011* e que não paga as contas nem a manutenção dos seus palácios, nem as deslocações, nem os serviços de segurança, está isento de impostos.
Democracia e monarquia não rimam, agora monarquia e crise ainda rimam menos.
Isto sim é um escândalo. E muito mais grave que o de Iñaki Undargarin. Porque não está em causa o dinheiro de um instituto, mas o dinheiro e o trabalho de todos os contribuintes.

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