"Férias" no hospital

Sou a única pessoa que foi passar férias a Itália e voltou mais magra. Porque os 4 dias de sonho e romance em Veneza revelaram-se um surreal pesadelo que ainda hoje, de volta à cidade Condal, me assombra. Estou de baixa, na cama, com uma cicatriz que nunca deixa de incomodar. E quando digo cicatriz não é uma metáfora, é um corte alinhavado com fio branco por onde me extraíram a glândula de Bartolini. Uma glândula ao mais puro estilo dos dentes do siso: só serve para nos fazer morrer de dor.
Num momento estava no vaporetto a passear pelo Gran Canale e no momento seguinte estava no quartinho verde do Hospital San Giovani e Paolo. Era Sexta-feira, dia de reis, e a médica marcou a minha “simples intervenção de 5 minutos” para as 6.30, quando chegasse o anestesista. Não ia haver anestesia local, não ia haver cicatriz, apenas um furinho, drenagem, limpeza e uma rápida recuperação. Só que o anestesista não chegou e a Sô Doutora pirou-se, bazou, deu de frosques, sem sequer dedicar-me um mísero adeus. Nunca mais a vi. Percebo que qualquer trabalhador tenha vontade de voltar a casa depois da sua jornada laboral, mas quando há alguma coisa urgente para acabar fica-se mais um bocadinho não é? Agora, se uma paciente desesperada de dor não é uma prioridade para um médico, o que será? Já eram quase 9 da noite quando um senhor, também ele vestido de verde, se dignou a informar-me que a minha intervenção tinha sido adiada para o dia seguinte às 9 da manha. Como assim para o dia seguinte? Então eu não antecipei o voo de regresso porque achei que não resistiria a mais uma noite de dor e ardor e agora adiam a intervenção assim, sem mais nem ontem?
Bem vindos ao sistema de saúde público italiano. E vocês não sabem o que ainda estava por vir. A noite foi, como previsto, exasperante. No meu sofrimento in solo, acompanharam-me apenas os choros constantes de bebés. O meu quartinho verde era na sessão de genecologia e partos.
Eu bem que toquei a campainha para chamar a enfermeira mas nenhum membro dos uniformes verdes se compadeceu de mim e o médico de turno não deu a cara uma única vez. Pela manha chegou outra médica, que voltou a fazer o exame já feito e a determinar o já determinado, só que para as 11 da manha em vez das 9. Disse que claro que não podia ser às 9, que as operações não podiam ter uma hora marcada (se fosse outra pessoa a marcar que não ela). É também evidente a minha alegria com a notícia de mais duas horas de espera. Afinal, só lá estava desde as 4.30 da tarde, do dia anterior. Desde então, sem comer nem beber nada. Às 11, banhada em lágrimas (devo ter chorado mais que todos os bebés juntos), puseram-me um outfit também verde com touca a condizer e transportaram-me na maca para a sala de operações. Deixaram-me a um canto, com uma enfermeira que estava muito ocupada a jogar ao solitário no computador. Aí fiquei meia hora, com a enfermeira sempre de costas para mim, imersa nas suas cartas digitais, alheia à minha presença inerte e sôfrega. Podia ter morrido ali que ela não se teria dado conta. Ou se calhar ainda se tinha chateado comigo, que insolência a minha interromper o seu jogo de cartas por estar com falta de ar ou algo do género. Levaram-me de volta para o quartinho verde. Afinal, ainda não era desta que o anestesista vinha. Então, com as poucas forças que me restavam, mandei rodar a baiana! Como é possível estar à espera para ser operada desde as 4.30 do dia anterior, em estado de insuportável sofrimento e em total jejum sem nem sequer poder saborear uma gota de água? Como é possível que me tenham dado TRÊS horários de intervenção e nenhum se tenha cumprido? Responderam-me que como não estava a morrer tinha de me aguentar, que só havia um anestesista para todo o hospital porque era fim de semana e existiam casos mais prioritários do que o meu. Descartaram-se de culpas e acusaram-me de insensível. Está certo, eles comprometem-se com um trabalho para curar as pessoas e ajudá-las a sentirem-se melhor e em vez disso transformam uma experiência já de si terrível num choque traumática, sem qualquer rasgo de humanidade, profissionalismo ou preocupação porque afinal, eu não estava a morrer. Mas a insensível sou eu.
Bastava que me tivessem avisado que o horário da operação era incerto e totalmente dependente da disponibilidade do único anestesista de serviço, que eu teria regressado imediatamente a Barcelona e em vez de estar ali a discutir com eles já teria sido tratada. Posto que não me conseguia levantar para ir-me embora, porque nem sequer me conseguia levantar para ir à casa de banho, resignei-me à minha sorte, ou falta dela, e esperei mais uma hora. O processo simples de 5 minutos sem cicatriz, para o qual eu assinei a autorização, foi uma operação de meia hora com epidoral e 4cm de pontos. Tiraram-me uma glândula sem avisar. O que me palpita a ilegalidade. A médica também se foi embora sem consultar o meu estado pós-intervenção. Provavelmente as enfermeiras já lhe tinham comunicado que eu continuava viva e isso neste hospital é quanto baste para que um médico sinta que cumpriu o seu dever. A rápida recuperação que me prometeu a primeira médica, como tudo o resto, não passou de um mito. Assim que a anestesia desapareceu as dores voltaram em força e a noite tornou a ser um calvário. Havia porém uma médica algo mais solícita, que acalmou as minhas dúvidas sobre a eficácia da operaçao, já que me continuava a doer tanto como antes, e suavizou os meus clamores com um analgésico mais forte.
Já a médica do dia seguinte disse logo que eu estava ótima, que se quisesse já me podia ir embora, só tinha que assinar a saída. Foi, portanto, com espanto que li no meu informe médico “a paciente admitiu-se contra o parecer da autoridade sanitária”. Explicou-me a enfermeira que eu tinha assinado o alta voluntário, que a médica achava que eu não me podia ir embora. O quê??? Mas a médica disse que eu estava ótima e que era melhor ir fazer a recuperação em casa. “Sim, ela pode ter-te dito isso porque isto não é uma prisão, as pessoas são livres de ir embora, mas na opinião dela tinhas de ficar mais uma noite, é o procedimento indicado.” Se eu ficasse ali mais uma noite pegava na seringa que tinha enfiada no braço direito e começava a atacar toda a gente vestida de verde que se me atravessasse pela frente. Menos a senhora moldava que me limpava o quarto e conversava comigo. Ela disse-me que eu era muito bonita. O que tem um efeito altamente reconfortante em alguém num estado tão moribundo como aquele me que e me encontrava, sem dormir, nem comer, nem pentear, nem tomar banho. O tipo de carinho e atenção que se espera dos médicos e das enfermeiras só a senhora da limpeza me soube dar. Pois é, os diplomas não veem com ética nem humanidade incluídas.
Eu não estava ótima. Não estou ótima. Doí-me menos, mas depois de tudo o que passei, “doer menos” não me parece um resultado satisfatório.

Comentários

Anónimo disse…
ai ai esta história até a mim doeu!
ruitio
http://expressoelas.blogspot.com/2010/12/saude-feminina-glandulas-de-bartholin.html

bjs
Ale disse…
acredita que a mim doeu mais!

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