O resgate

Otem, ao fim do dia, saí de casa para ir ao supermercado. Ao atravessar a rua, deparei-me com uma pequena criatura asiática em pleno pranto. Olhei à volta, numa busca ávida pelos progenitores da cria que já começava a roçar o ranhoso. Nao vi ninguém. Voltei a pousar os olhos no petiz. Esperneava e apontava para uma carrinha branca, da qual esperei ansiosamente que saísse o seu papá. Nao saiu. Entao vi modos do moço se fazer à estrada, ignorando completamente as cores dos sinais de trânsito. Indecisa entre a multiplicidade de idiomas possíveis para se abordar um enfant oriental em Barcelona, optei pela placagem. Sempre infalível quando a altura do alvo nao supera a nossa cintura. Impedi que ele se joga-se à estrada. Nao sei até que ponto a minha placagem o tranquilizou, acho mesmo que ter uma girafa a cortar-lhe o passo provocou um incremento considerável de choradeira. Tanto, que uma velhinha que por ali passava se compadeceu do espernear e me perguntou se o pequeno estava sozinho. Eu disse a verdade: nao sei. Ela, sem perder um minuto a pensar na questao da multiplicidade de idiomas perguntou-lhe “Qué pasa rei?”. Mas o rei nao fez mais do que prosseguir com as suas reais lamentaçoes. A velhinha deu-lhe a mao (como é que eu nao pensei nisso!) e disse que havia naquela rua duas lojas do chinês, que devia ser de alguém daí, enquanto enfatizava o desespero que os pais deveriam estar a passar.
Ainda que a intençao de devoluçao seja nobre, nao sei se quao étnicamente correcto é pensar que só porque se encontra um pequeno asiático a chorar baba e ranho numa esquina, ele pertence ao agregado familiar das lojinhas do chinês ali ao lado.
Fomos divagando pela rua ao sabor do dedo indicador do rei. Eu podia te-lo deixado com a velhinha, mas ela tinha a consistencia do puré da maggi e faltava-me a certeza de que durante os próximos 5 minutos nao se esqueceria do que é que estava a fazer de mao dada com um meio palmo made in China. Assim sendo, estivemos unidos por escassos instantes como se fossemos uma família feliz mesmo que, claramente, disfuncional.
Vai-se a ver e a criaturinha pertencia à senhora de um bar onde se realizam encontros de xadrez. Nao estava nada em desespero e nem sequer percebeu que haviamos recollhido o fruto do seu amor da beira da estrada, em estado alarmante. A velhinha bem que lhe explicava mas ela limitava-se a sorrir e a dizer “o papa”. Alusao ao progenitor macho que chegou em seguida, também ele sorridente, como se nao tivesse acabado de perder o filho no meio da rua. A velhinha continuou, implacável na sua tentativa de sacar-lhes um rastro de preocupaçao, uma interjeiçao de alívio ou um singelo agradecimento.
Eu segui para o supermercado.
Há obstáculos culturais que a multiplicidade de idiomas só pode transpôr se souber mandarim.

Comentários

Anónimo disse…
ora ora , alex, francamente!conhecia esse filme mas com rebentos ciganos que acabavam invariavelmente no meio da estrada a dizer que tu o tinhas empurrado. Esta é uma versão sec XXI, soft e pelos vistos genuina. Mas nada de aflições: Chineses há muitos!beijocas
ruitio

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