Mary Kay

Estava eu humildemente a um canto, porque nos desfiles de moda toda a gente quer estar no centro, quando ela se aproximou. De todas as palavras que debitou, sorridente e energética, recordo apenas aquele troço mágico “sessão de beleza grátis”. Ok. Guardei o cartão sem olhar e avancei para o próximo desfile. Apenas dias depois, quando estava no elevador de um prédio desconhecido a subir para um andar incerto, tendo como destino um rosto de semblante esquecido chamado Sheila, é que se me ocorreu: devia ter lido o cartão, devia ter procurado na internet, devia ter perguntado mais, devia ter avisado o meu namorado... E agora, se isto é tudo uma tapada para uma rede de tráfico de órgãos humanos? Ou de prostituição? Tantos anos sem aceitar doces de estranhos para chegar aos 25 e sucumbir à primeira “sessão de beleza grátis” que me oferecem no meio da rua. Ai se a minha mãe soubesse! Que vergonha...
A única coisa que me tranquilizava eram as duas raparigas que subiam no elevador comigo, numa conversa animadíssima e sem quaisquer reticências, rumo ao mesmo andar. A dar para o torto, pensei, apanham-nas a elas primeiro e eu consigo escapar-me. Que se lixem a entreajuda e o amor ao próximo, que eu gosto muito de toda a gente mas pelos meus rins tenho um amor especial.
A porta estava aberta e não se vislumbravam banheiras cheias de gelo com gente ensanguentada, imagem que retive de algum filme de terror. A Sheila apareceu logo e levou-me para uma sala à parte. Aqui também não havia banheiras. Acomodou-me na cadeira em frente a um espelho e começou o seu trabalho. Rapidamente percebi que a única coisa que corria perigo ali era a minha conta bancária, o que nos dias que correm é tão preocupante como perder um rim. A Sheila é uma comercial da marca de produtos de beleza Mary Kay. Uma marca de alta gama líder de mercado nos estados unidos, diz ela. E eu estava ali para provar o kit milagroso, o set de mãos, o esfoliante de lábios e o hidratante, o desmaquilhante de olhos e o revitalizador de olhos, com cítricos. Começou por agarrar na minha cabeça e tatear-me os poros faciais com detenção. O veredicto foi satisfatório. A minha pele não está mal, não está nada mal, até nem preciso comprar o creme anti-rugas. Por enquanto. Daqui a um tempo logo se vê. Porque quando se chega aos 25 anos a nossa pele deixa de produzir 3 coisas que não me lembro do nome mas que estão em todos os cremes que a Sheila me deu para experimentar e, claro, são indispensáveis para manter a nossa pele jovem e esbelta. A partir dos 25 anos começam também a aparecer as primeiras linhas de expressão. E isso é mal que se tem de combater antes que se transforme numa catástrofe: rugas!
Dito isto, levei um sermão por usar toalhitas desmaquilhantes e por não recorrer a uma loção específica para tirar a maquilhagem dos olhos e por limpá-los na horizontal. Dá rugas! O sol também dá rugas, os produtso x e y também , o tabaco também, o stress também, na verdade, fiquei com a ideia que só de respirar me iam brotar rugas pelos contornos dos olhos afora. Mas a sequidade da minha pela mista é um facto, os pontos negros também, os poros demasiado abertos, duas manchas, algumas erupções devido a falta de limpeza, disse a Sheila, e eu senti-me porquinha, não obstante lave a cara todos os dias e todas as noites com o gel da Avéne para peles jovens com tendência acneica. Algo que a dermatologista me recomendou quando eu tinha 16 anos e que a Sheila me convenceu, depois de duas horas de sessão de beleza, que está na altura de substituir pelo kit milagroso: limpa, esfolia, refresca, hidrata, suaviza, reduz linhas de expressão e pequenas rugas, dá firmeza, protege do sol, limpa as células mortas, revitaliza e reconstrói. São 4 produtos, um limpiador 3 em 1 (olé promoção!), um sérum de dia, um sérum de noite e um hidratante. Vêm acompanhados de uma consultora de beleza, a Sheila quem mais?, opção de devolução ao fim de uma semana e aula grátis de maquilhagem mais um tratamento grátis para unificar o tom da pele. Daqui a uma semana voltarei a subir pelo elevador para a minha consultora de beleza avaliar os resultados, que isto é tudo levado com extrema seriedade e seguimento do cliente, como se em vez de espelhos ela tivesse diplomas de medicina na parede da sua sala-consultório.
Não tem, mas de certeza que recebe por comissão e isso assegura um tratamento V.I.P.

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