http://www.ionline.pt/mundo/john-perkins-portugal-esta-ser-assassinado-muitos-paises-terceiro-mundo-ja-foram

Este artigo é tao bom e tao frustrante.
Acordamos, vamos trabalhar, é uma chatice até lá e chegar, seja o trânsito insuportável seja o metro sem lugar para sentar e odor a gente. Quando chegamos as cosias nao melhoram, mais chatices, convenhamos, trabalhar é sempre chato. E depois de trabalhar há as tarefas domésticas, um rol infinito de tarefas domésticas, pequenas chatices. E há quem tenha filhos, que por si só já sao toda uma tarefa. Os dias passam sem que se dê por eles. Ah, já estamos quase na Primavera!
Para nos abstrairmos dessa alienaçao proletária vamos passear, vamos de férias, vamos sair à noite, tomar um copo, rir com os amigos, vêr um filme. Momentos sem chatices e sem problemas. O problema é que há uma chatice muito maior pairando como uma nuvém negra por cima de todos nós. Uma chatice que faz as nossas chatices parecerem formiguinhas atarantadas cá em baixo. É uma chatice chamada sistema, mas nao se explica pelas leis da termodinamica. Explica-se mais pela anomia das leis, pelo niilismo legislativo, que é como quem diz, pelo vale tudo.
Na Universidade mandaram-nos ler Foucault, uma catrafada de Foucault. E entre as páginas em francês Foucault falava de um tal de panóptico. Um sistema vigilante e de instituiçoes normalizadoras e controladoras da sociedade. Era tudo muito abstracto. Era tudo muito filosófico. Era tudo muito real, eu é que nao sabia.
Um dos meus filmes preferidos é a Tropa de Elite seguida pela sua sequela, Tropa de Elite 2. E aqui temos outra vez, esse sistema foucaultiano, começando na arraia miúda até aos grandes tubaroes: os políticos, as multinacionais, os interesses entre ambos e a menina dos seus olhos, a bela da corrupçao.
No fim do ano passado estive a estudar para um exame das Naçoes Unidas, esse exemplo de diplomacia e ajuda internacional. Onde os 5 maiores fabricantes de armas do mundo sao os 5 membros fixos do Conselho de Segurança. Onde há direito de vecto para os que contribuem mais, economicamente falando, claro. Onde as guerras sao a pedido dos Estados Unidos e os programas nucleares se formam no ar, como pipocas, para justificar invasoes. Sim, as Naçoes Unidas ajudam muita gente, mas também sao um combustível indispensável para que avance esse sistema que dizima as economias alheias enquanto vamos ali ao supermercado comprar mais leite que já se acabou.
Hoje, que já nao sou aquele copinho de leite que era nos tempos da faculdade, tempos em que a maior chatice da minha vida era um professor chamado Cascais, li este artigo. Este artigo diz o que o Foucault disse, mostra o que a Tropa de Elite mostrou, acusa de assassinos financeiros entidades de imenso prestígio como o Banco Mudial e o FMI, organismo especializado das Naçoes Unidas.
Basicamente é como se nunca tivessemos saído da escravatura, porque é isso que se passa agorinha mesmo, neste preciso instante: Economias sequestradas com promessas de ajuda e planos de desenvolvimento em troca de empréstimos impossíveis de pagar. Todos os bens e recursos di país confiscados, ao preço da banana, todo o poder de decisao anulado.
Beneficiam as grandes empresas. O povo que é povo perde cada dia um bocadinho da sua qualidade de vida.
E agora que já sei como é que o mundo funciona, agora que já sei que o capitalismo engoliu todos os os princípios sociais e ambientais e proclamou regentes o lucro e a corrupçao, agora que já sei que é tudo um monopólio de interesses, agora que já sei que vivemos dentro de um sistema tao complexo e profundo que nao se pode trespassar, o que é que eu posso fazer?
O que é que eu posso fazer que nao seja acabar o plano de marketing que me pediram, ir à reuniao que o meu chefe marcou, responder ao email que acabou de chegar? Voltar para casa, fazer o jantar, recolher a roupa da corda, lavar a loiça, limpar a cozinha e acordar amanha outra vez, para ir trabalhar...?
Saudades dos tempos em que nao entendia Foucault e chamava nomes ao Cascais.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O síndrome de Bridget Jones

Já cá estou outra vez, desculpem a demora...

A sentencia das estrelas