Os calçots

Para ser uma quase catalã mesmo à séria, havia um ritual em falta: comer calçots. Assim escrito soa a calçado e sola de sapato. Mas o calçot não só é comestível como envolve todo um ritual festivo designado por “calçotada”. Os amigos juntam-se numa tarde de sol, num qualquer restaurante com esplanada ou casa com jardim, e bebem, conversam, riem, ouvem música (opcional) e comem calçots.
E sujam aos mãos, porque comem calçots.
E ficam com mau hálito, porque comem calçots.
E disparam gases (por isso é que tem de ser ao livre), porque comem calçots.
Assim até a sola de sapato já parece mais convidativa não é verdade?
A calçotada é uma espécie de barbeque mas com um convidado de honra, que vem servido em abundantes quantidades e é feito no carvão.
Pelo que chega às nossas mãos carbonizado.
E digo mãos porque o calçot se come com o tacto, à la selvagem. Porém, não pense o caro leitor que se trata apenas de javardice porque também existe um intensa componente técnica nisto de comer calçots.
Já vai sendo parágrafo de revelar que os calçots sao cebolas queimadas, nem mais, nem menos.
Mas a parte queimada não se come! Nananinanao. A parte queimada só assusta o olfacto e suja as mãos de cinza negra. E a roupa também. “Ah! Vieste comer calçots vestida de branco!”. Desculpem lá, não sabia que havia um dress code para comer cebolas.
Vestido de branco ou não, o primeiro passo é colocar um guardanapo sobre a roupa, estilo babete.
Depois, tente esconder o pânico o melhor que puder quando vir (e cheirar) 20 cebolas queimadas no seu prato. É escusado perguntar “Isto é para dividir, certo?”. Porque está errado. Rir-se-ão de si com piedade e dirão, não, não, é um prato para cada um.



Face ao inevitável, agarre um calçot carbonizado pelo caule, com determinação, e puxe a parte de baixo, mais redondinha, até o depilar por completo.



Se fez tudo correctamente, terá na sua mão uma coisa branca, com a forma de um espargo. Se a coisa deu para o torto, então terá um pedaço de cebola queimada em cada mão e já desperdiçou um calçot! Mas não faz mal, porque tem mais 19 tentativas e, irremediavelmente, acabará por conseguir.
Com o trigo separado do joio, há que submergir o calçot depilado no prato de molho romesco e, com muito cuidado para o molho não fazer ricochete em cima do seu nariz nem do nariz de nenhum dos convivas, levantá-lo no ar ligeiramente acima da sua cabeça.



Ao mesmo tempo que levanta o calçot tem de abrir a boca como se fosse um tubarão branco.



Lentamente, tem de baixar o calçot na direçao da boca, morder e mastigar.


No fim já só é preciso engolir. E lavar as mãos.
Nao é algo que nos faça sentir sexys, não é afrodisíaco, não é chic nem fashion. E não é, em definitiva, o ideal para um encontro romântico.
Mas é o culminar da catalanhice e depois de 3 anos na cidade Condal, já era altura de comer calçots!

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