Crítica literária

Não é uma crítica, digo-vos já, antes de que ponham as vossas expectativas lá no alto. É um post sobre um livro que acabei de ler há umas semanas, mas um título pomposo vende mais. E se tivesse posto "Sexy crítica literária" aposto que duplicava o número de visitas do blog. Que o diga este livro, ao qual chamaram "Emergency sex and other desperate measures - true stories from a war zone". As duas primeiras palavras são o quíntuplo do tamanho das demais, depois há a foto de um tanque de guerra, mas quase não chega ao tamanho de "SEX" e qualquer pessoa pensará que se trata de uma novela erótica.


Pergunto-me quantos consumidores se haverão sentido enganados quando começaram a ler relatos na primeira pessoa de guerras civis em África e alguns dos maiores massacres da história contemporânea. Os preliminares deste livro são crianças com metralhadoras e buracos com centenas de corpos, previamente assassinados com menos piedade que num campo de concentração. Mas isso não ficava bem no título.
Comprei-o porque os autores são ex-trabalhadores das Nações Unidas e no ano passado eu considerei a hipótese de ser mais uma como eles. Hipótese completamente descartada depois de ler este livro. As Nações Unidas são retratadas como uma instituição que quer fazer o bem mas cuja máquina burocrática e lobbys aliados impede de chegar a fazer seja o que for. Além de trabalhadores pouco ortodoxos, que a única coisa que querem salvar são as suas contas bancárias.
É um livro duro, que mais que mostrar a impotência da ONU, mostra como a humanidade não é digna desse nome. Há tubarões brancos mais simpáticos que os perpetradores dos massacres de Rwanda ou Srebrenica.
De bom, ficam as estórias de quem ingenuamente achou que podia mudar o mundo e de que vale a pena pensar assim, porque essa pensamento é a força motriz que traz o melhor de nós e que dá um sentido ao que fazemos.
E eis que por entre páginas de injustiças que questionam o trabalho de Deus, torturas impensáveis e genocídios, emerge uma que me faz rir. Marquei-a para voltar a ler depois, e cada vez que leio rio como se fosse a primeira vez. E essa foi, para mim, a grande lição deste livro: enquanto nos conseguirmos rir, há esperança.

"Ken - With the Bulgarian Battalion in Western Cambodia
(...) Are we under attack or is this a precaution? It would be silly to get shot because I insisted on putting my pants on, but it would be ridiculous if we're not under direct attack to run outside in my underwear. So shame wins over fear. I dress and pack up, thinking, Christ, what if I die because I decided to put my socks on? Should I brush my teeth? (...) Why wait outside the house? For Bulgarians?Okay friend, if there really is danger of attack enough for us to evacuate, then maybe we should move from under the fucking porch light?
So I go a hundred yards off to the side of the house and wait in the shadows of a clump of trees; at least we can see what approaches from here but can't be seen. Alekko comes but he is agitated. Let's hide over there, he says, runs and crouches in a ditch beside the road. I follow him. We are exposed. Fuck, why did I follow him? I go back to my clump of trees. He yells, Where are you going? ans runs after me. This is defeating the purpose of hiding." 

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