Panico na surpresa


Eu, que todos os dias quando abro a persiana dou de caras com as pombas brancas esculpidas entre as torres da Sagarada Família. Eu, que saio à varanda para ver o tempo e a primeira coisa que vejo são as gruas da Sagarda Família. Eu, que podia ter estado tão ricamente sentada nessa noita de Mercè a apreciar em pleno, desde um privilegiado nono andar, o show multimedia que fizeram na (já mencionada) Sagrada Família. Onde é que EU estava???
Eu estava no chamado andar terra, a tentar furar a multidão de milhares de pessoas e carros que entupiram, literalmente, a minha rua. E não estava sozinha, não, levava comigo uma caixa suficientemente grande para transportar uma televisão, preenchida com dois bolos de aniversário.Um para a noite, outro para o dia, como os sapatos.
Vinha do cabeleireiro e o taxi deixou-me a 3 quarteiroes do meu destino porque as ruas estavam cortadas. Só para conseguir chegar à pastelaria tive que saltar por cima de muletas e crianças e empurrar ligeiramente variadas famílias e jovens com cervejas na mão. Uma vez tendo a caixa com os bolos em meu poder, tudo ficou pior. As duas mãos ocupadas, um vulto que me tapava metade da cara e uma travessia longa e íngreme pelo apocalipse instalado em todo o bairro. De um lado o maldito show multimedia, do outro,  o palco dos concertos. No meio, a porta de minha casa.  
Sem falar nas derradeiras peripécias de destrancar 3 portas, entrar/sair do elevador e levantar dinheiro, sem mãos.  E com 2 pedaços de bolos decorados com espetadas de frutas que impediam que as respectivas caixas embaladas dentro da caixa mãe, fechassem.
Para maior realismo, imagine-se a Sé de Lisboa na noite de Santo António, e alguém de vestidinho e sandálias de salto, a carregar uma caixa enorme com perecíveis lá dentro. E quem é que consegue apanhar um taxi na Sé na noite de Santo António? E como é que o táxi sai do meio da baixa na noite de Santo António?
Com o metro nem se podia contar, a começar pelo facto de que havia tanta gente que nem sequer se conseguia entrar.  
Pois é, estão a ver, foi um doce de experiência!
Mas não é que consegui chegar ao jantar a tempo de comer? Sim senhor, chegámos sao e salvos, eu, o bolo e as velas.
E ele estava tão feliz com a surpresa, porque eu tinha-lhe dito que não podia ir, que a minha consciência logo se tranquilizou por aquele empurrão à velhota que não estava nem a avançar, nem a colaborar em ceder o passo. O pânico, as gotas de suor e raiva e os gritos de “Saiam-me da frente”,  valeram a pena para ver aquele sorriso. 





Quando trouxeram o bolo (cuja existência ele desconhecia), com bengalas de fogo, velinhas e as maravilhosas espetadas de fruta, foi todo um deleite! Não sobrou nem um pedacinho para contar a estória, que guardarei para sempre na minha memória individual e tomarei como lição, nas festas da Mercè mudar de casa!

Parabéns!!!


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