Guggenheimiando


As pessoas que não leem são mais estúpidas.
Foi a conclusão a que cheguei depois de visitar as exposições do Guggenheim.  Longe do Louvre e longe de ser uma prova de maratona como o Prado, a exposição do Guggenheim é agradável. O cérebro não se entope de imagens, as ideias dos artistas não se baralham que nem ovos mexidos e temos tempo e calma para entender o que cada um deles nos queria dizer. Mas, para isso, é preciso ler. Claro. Como quem lê a direção do metro, as paragens do autocarro, os sinais de estacionamento, o menu do restaurante, o nome das ruas, a programação da televisão,  a sinopsis dos filmes,  a promoção fantástica dos saldos de Inverno!  Para entender, é preciso ler.
“Oh! Aqui no! Noooo… Una Bañera?!” – disse com descarinho  e repulsa, a senhora que não leu, à sua amiga que se aventurava pela terceira sala da exposição de Oldenburg. Havia, de facto, uma banheira feita de cartão a brindar a entrada da sala. E um interruptor gigante, um telefone, uma retrete, tudo hand made pelo artista. Artista que eu desconhecia mas que imediatamente captou o meu interesse com uma fatia de tarte de chocolate gigante esculpida numa espécie de puf, que nos deixava água na boca. Como é que isto é arte foi a pergunta que me intrigou e me empurrou à descoberta, como quem tenta perceber a piada de uma anedota de que toda a gente se riu. A senhora também pensou como é que isto é arte, mas fê-lo em jeito de afirmação. E não leu. Portanto ela só viu uma banheira e de longe. Nunca saberá que Oldenburg foi um artista do pós-guerra que fazia representações humorísticas do quotidiano e da sua realidade social porque achava que a única forma de sobreviver era com humor.  
A senhora, perdeu uma oportunidade para sorrir. Que a julgar pela cara dela fazia-lhe falta. 
A banheira e o pedaço de tarte fazem parte de uma sequência de quatro instalações. Partimos em The street rodeados em 3d pelo ambiente proletário e decadente da rua do artista, até chegarmos a The Store, onde o consumismo salta à vista e nos faz salivar com a dita tarte e outros petiscos,  descansamos em casa, onde está a banheira, com outros objectos pessoais projetados para serem monumentos gigantes, num cruze brilhante e divertido entre espaço público e espaço privado, sempre pensado para levantar os ânimos das pessoas. Não seria engraçado sair para ir trabalhar e ver um baton vermelho gigante esculpido ao lado do Empire state?
 A quarta e última instalação é um assalto à fantasia que transforma os mais variados objetos de consumo em pequenas obras de arte num mini “museu”  a que o artista apelidou de Mouse Museum. O mouse, inspirando no "one and only" Mickey Mouse, junta a arte sublime com a cultura popular que não são opostos mas fonte de inspiração uma da outra.
Por isso, vale a pena ler um livro sobre a viagem de um elefante ou arriscar-se num quadro onde parece não haver nada mais que quadrados pintados às cores. Não quer dizer que se tenha de gostar de tudo, apenas que cada coisa nos dá algo mais. Cada coisa abre um bocadinho mais de mundo para podermos jogar com ele. Mas é preciso estar disposto a descodificar os imbróglios artísticos. Partindo da base de que a temática não faz a arte, que é a arte que faz as temáticas. E nunca esquecendo que as pessoas que não lêem são mais estúpidas. E mais tristes. E o seu mundo é tão vasto como uma banheira.




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