iThief


Conheço um mago  impressionante. Não faz desaparecer elefantes como o Luís de Matos mas consegue fazer desaparecer relógios dos pulsos das pessoas. A performance deste truque, que o vi fazer há poucos dias, fascinou-me. E deixou-me estarrecida de medo. O mago tirava o relógio do pulso da pessoa enquanto falava com ela, olhos nos olhos, sem que a pessoa (nem qualquer outro espectador) se desse conta. A pessoa só dava pela falta do relógio quando ele lhe dizia “Pode ser tão amável de dizer-me que horas são ” ao mesmo tempo que estendia o seu próprio pulso com o relógio “roubado”. A vítima, atónita, olhava de imediato para o seu relógio e confirmava que o mago não tinha um relógio igual ao seu. O mago tinha o seu relógio  É claro que o mago restituiu o relógio  Era só um truque. Mas é assim tão fácil fazer desaparecer as nossas coisas sem que nos apercebamos? A dúvida alarmou-me, mas não mais que 10 minutos. Até terã-feira passada, às 20.30. Na paragem de metro de Rocafort, onde todos os dias chego em metro ao trabalho de manhã e apanho o metro para voltar para casa ao fim da tarde.  Estava a ouvir música com o Iphone, um 4s branco que o “novio” me “regalou” no natal do ano passado. Pus o Iphone no bolso da frente do casaco para agilizar todo esse processo de abrir a mala e a carteira, tirar o passe, passar pela máquina e guardar tudo outra vez. Ia já na parte de fechar a mala, enquanto descia a escadaria de acesso à plataforma do metro quando, de repente, a música parou. Sem nem terminar de fechar a mala, porque entretanto o fecho ficou encravado, pus a mão no bolso para ver o que é que se passava com o Iphone. E o que se passava é que o Iphone não estava lá. O fio dos auriculares bandeava solto nos meus dedos. Virei-me, rapidamente, com uma panóplia de pensamentos a chocarem no meu cérebro, gerando mais pânico que ideias: caiu, está no fundo do bolso, está dentro da mala, roubaram-mo? Olhei à volta em desespero, procurando suspeitos ao mesmo tempo que revistava o chão e o bolso, e me debatia com o fecho da mala. Não havia ninguém a entrar nem a sair. Não havia nada no chão  nada no bolso e nada na mala. Nesse momento soube que me tinham roubado, debaixo do meu nariz, enquanto usava o iphone. E que nunca mais ia ver o presente de natal do meu namorado. Não vi, não senti, não ouvi nada.  
Não havia segurança nem vigilante na estação. Havia uma câmara em cima das escadas. Mas a polícia diz que eu não tenho o direito de ver a câmara. Que eles farão uma investigação e, se acharem conveniente, pedirão para ver as câmaras. Porém, eu também não tenho o direito de acompanhar essa investigação nem de saber os resultados.  Mas eu sei, de antemão, que o resultado vai ser assim: o papel da minha denúncia vai ficar arquivado com outras centenas de denúncias que não vão ser investigadas. E as câmaras do metro vão guardar, só para elas, a identidade do ladrão do meu iphone, até o limite da memória do disco duro. Depois, vão gravar por cima.
Nós, cidadãos, só temos o direito de sermos roubados.
É  a magia desta democracia.

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