Porquê não atender o telefone a desconhecidos



Toda a gente já experimentou momentos sui generis. Momentos que pensamos que não estão a acontecer, que não pode ser, que é para os apanhados.
Como esse fantástico momento em que nos ligam de uma companhia de seguros porque comprámos uma viagem com a edreams. Primeiro usam um tom eloquente, dizendo que somos os felizes contemplados, os selecionados entre muitos para receber uma maravilhosa oferta. Confirmam que somos quem somos, dizem o nome da empresa  uma e outra vez, na vã esperança de que nos lembremos.  E depois, quando finalmente estamos convencidos de que ganhámos o euromilhões, atacam! Como as hienas do Rei Leão.
Assim, passei de um estado de êxtase a um estado de sórdida incredulidade. Então não é que o senhor da companhia de seguros me queria vender um seguro de vida! E debitou ali de seguida, sem parar para respirar, as amplias vantagens da aquisição dessa “maravilhosa oferta”. Se falecer por acidente de carro os seus beneficiários recebem 80.000€, enquanto que se falecer por acidente laboral ou doméstico, imagine, a fritar croquetes, a indeminização será de  40.000€.
Também havia um montante específico para a morte por acidente em transporte público, mas estou em crer que era inferior ao da morte por acidente em transporte privado. Confesso que às tantas perdi-me, embriagada em todas as diferentes hipóteses de falecimento da minha pessoa durante a minha próxima viagem. Voltei a realizar quando o senhor me perguntou se me podia mandar por email a papelada já que só tinha de pagar 0,60 cêntimos ao mês, para poder morrer sossegada e desfrutar da maravilhosa, da irrecusável, da melhor oferta! Bem, desfrutariam bastante mais os meus beneficiários do que eu, porque eu seria a falecida.
A voz eloquente acalmara-se por fim, aproveitando para retomar o fôlego, depois de me anunciar 50 maneiras de morrer e as respetivas compensações monetárias como quem anuncia mais uma volta no Canguru da feira de Santa Iria.
Aguardava agora uma resposta.
O homem pôs ali todo o malabarismo retórico de que dispunha e eu não fui capaz de dar-lhe mais que o cliché “Não estou interessada”.
Porquê?
Porque não estou a pensar morrer nos próximos tempos, ora essa!
(Ou pelo menos não estava, até o senhor me ter ligado).

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