Um conto de Natal

Era uma vez uma menina pequenina, mas grande para a sua idade. Os olhos de um castanho intenso  e o cabelo cortado à tigela, pequena maldade que todas as mães fizeram aos filhos nos anos 80.
No Natal, o pai levava-a ao circo. Ela tinha uma antítese de opiniões em relação ao circo. Gostava, porque todas as crianças gostam. Mas não achava assim tanta piada aos palhaços, temia pela vida dos trapezistas e tinha medo dos leões e dos tigres. Porque começou a ser céptica desde cedo e não acreditava que aquelas grades bamboleantes fossem um sistema de segurança muito efetivo.  Mas não dizia nada porque olhava para as outras crianças, para os pais e para a irmã, que era mais nova, e mais ninguém parecia partilhar o seu cepticismo. As crianças, porque ainda não sabiam o que isso era, os pais porque sabiam que, muito provavelmente, as feras tinham sido devidamente tranquilizadas antes do espetáculo.
Sofria pois, ali sentada horas a fio ( que no tempo das crianças 20 minutos são duas horas), sempre com receio que a engolisse um leão ou que lhe caísse um trapezista em cima. Um stress!
Num desses natais em que o pai a levou ao circo, e consta que foi a última vez que ela foi ao circo porque depois dessa vez ficou traumatizada para o resto da vida (que no tempo das crianças é até aos 10 anos, aproximadamente, porque a partir daí já são os reis do mambo e não têm traumas. E com 11 ou 12 nem se fala).
Na última vez que foi ao circo, quando chegou o intervalo, as crianças podiam tirar uma fotografia ao lado de um pequeno chimpanzé inofensivo e sorridente, cómico e afável, ou, em cima de um gigantesco elefante, assustador e sisudo, com tromba de poucos amigos. A menina pequenina, mas grande para a sua idade, que não era parva nem nada e até prezava bastante a vidinha que tinha, escolheu o chimpanzé. Decisão lógica, racional e perfeitamente compreensível quando se mede pouco mais de um metro se tanto. Mas o pai achou que não, que o chimpanzé não tinha piada nenhuma, que uma fotografia com o chimpanzé era ridícula e que a filha se ia arrepender a vida toda se não tirasse a fotografia com o elefante (que no tempo dos pais quer mesmo dizer para sempre). A menina sentiu-se pressionada, por um lado, não queria desiludir o pai nem ser ridícula, por outro, queria sair do circo inteira. Oscilava entre duas opções: dizer-lhe diretamente que não, ou dizer-lhe que se ele queria tanto uma fotografia com o elefante porque é que não pedia aos senhores domadores que o pusessem em cima da besta e tirava ele a foto, que ela até se dispunha a ficar ali à espera, quietinha e bem comportada.  Se bem que isso era a mesma coisa que dizer-lhe que não.
Entretanto o pai, como pai que era, antecipou-se. Quando ela deu por ele, já estava à frente do elefante com os domadores a pegarem-na ao colo. Com os músculos tensos e contraídos, sentada no que lhe parecia o monte Everest, ainda que não tivesse grandes noções de geografia, fez um sorriso rápido para foto. Sem abrir a boca porque o despegar dos lábios, além de exigir uma relaxação que ela não tinha, poderia ser um movimento demasiado brusco,  não fosse o elefante mexer-se.  Foto tirada, missão cumprida, o pai já podia dormir feliz essa noite porque  tinha  uma fotografia da filha em cima de um elefante. 
Muitos natais depois, quando a menina que era pequenina mas grande para a sua idade passou a ser só grande, ela encontrou a fotografia em cima do elefante. Olhou-a admirada e sorriu, com carinho. Imaginou se em vez de estar em cima de um elefante, ela estivesse ao lado de um chimpanzé a fazer macacadas, que é basicamente os que os chimpanzés fazem por natureza.
Então, como num milagre de Natal, percebeu que o pai tinha razão.

Cheia de orgulho, pegou no telemóvel, tirou uma fotografia à fotagrafia do elefante, colocou-a na sua página do facebook e contou a estória no seu blog. 


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