A pressão da liberdade

As imagens, em preto e branco, dos tanques na rua e da marcha do povo ao som dos acordes de Zeca Afonso. O contraste dos cravos com a palavra revolução. 
O 25 de Abril arrepia, faz estremecer os sentidos, enche-nos de orgulho.
Há 40 anos que somos livres.
Obrigado.
Antigamente, não se podia dizer, nõ se podia ler, não se podia ver. Não havia humoristas nem sátira nas peças de teatro.
As coisas eram em linha recta, não se permitiam obliquidades. E quem desse uma ligeira curva, sofreria severas consequências. 
Era proibido pensar, inovar, desafiar.
Antigamente, não havia filosofia e a história era interesseira.
Antigamente, não havia eleições.
Antigamente, morria-se pelos valores que se defendiam.
Somos uns privilegiados.
Podemos dizer o que bem nos apeteça, temos acesso aos livros, aos filmes, às músicas e às peças que quisermos. Podemos rir com os humoristas que fazem piadas sobre os políticos. Rir é um poder mais importante do que parece.
Podemos usar roupas arrojadas, maquilhagem gótica e o cabelo cor de rosa.
Temos computadores. Temeos telemóveis. Temos internet. Temos inter-rail. Temos Erasmus. Temos a Ryanair.
Temos liberdade!
Sim, mas não sabemos o que fazer com ela.
Porque somos livres, viajados e estudados, mas não temos trabalho. Pagámos a licenciatura, a pós-graduação, o mestrado, os workshops e o curso de inglês, mas não temos trabalho. Estagiámos grátis, responsabilizámo-nos pelas tarefas que ninguém queria e trabalhámos todas as horas que nos mandaram. Mas é mais económico contratar outro estagiário do que incorporar alguém que ambicione receber um salário.
Porque temos o Google e o Youtube ilimitados, mas não temos remunerações justas.
Porque temos uma oferta de bens de consumo muito mais amplia, mas também é tudo ampliamente mais caro.
Porque é mais fácil entrar num reality show que conseguir um contrato estável.
Porque no top das profissões mais bem pagas estão jogador de futebol e super-modelo.
Somos livres, mas vivemos em crise há mais de 5 anos.
Somos livres, mas somos obrigados a sair do país para procurar trabalho.
Somos livres, mas estamos presos às redes sociais e aos ditames de uma sociedade mediática e fútil, desprovida de valores, porque já ninguém morre por eles.  
Somos livres, mas vivemos com os nossos pais. Ou em casas improvisadas, com amigos.
Somos livres, mas votamos em branco, por falta de opções.
Somos livres, mas temos os nossos sonhos em fila de espera.
Lembro-me de uma canção que nos ensinaram na primária, a propósito do 25 de Abril: “Uma gaivota voava, voava, asas de vento coração de mar. Como ela ,somos livres, somos livres de voar...”
Somos livres, mas não temos asas.
Somos livres, mas sabemos que o céu não é azul.
O 25 de Abril deu-nos a liberdade, mas deixou-nos um vazio imenso para preencher, umas pegadas de gigante que não podemos seguir, porque já não se fazem sapatos como antigamente. Agora, fazem-se todos em série nalgum país asiático, que é mais barato.
Peço desculpa à liberdade e a todos os que lutaram por ela.  
Porque se sou livre, mas não vivo melhor nem mais feliz que os jovens de há 40 anos atrás,  estou a fazer alguma coisa mal.

Mas o quê?

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