Não 'tá fácil

Não sei por onde começar a escrever a lista de coisas de NY das quais tenho saudades. Também não sei porque razão escreveria essa lista, posto que seria uma deprimente tortura.
Mas sei que entre as lojas com roupas maravilhosas, o refúgio sonhador do Central Park, o brunch de fim-de-semana, o sem fim de restaurantes deliciosos, as aliciantes festas que cada noite me piscavam o olho e os magnânimes eventos desportivos e artísticos que vão da Broadway ao Madison Square Garden, há uma coisa de que sinto mesmo, mesmo, mesmo muita falta.
A Biblioteca do Bryant Park. A bem da verdade, é mais um pack que uma coisa só.
Por um lado, a biblioteca, com a sua imponência palacial, os corredores e as escadas de mármore, contrastando com os candeeiros dourados e a madeira das prateleiras.  Os passos que ecoam no ar, cheios de si mesmos, até ao tecto elegantemente pintado e trabalhado, de onde pendem refinados chandeliers, tão bonitos que não merecem que lhes traduza o nome.  As filas de mesas longas e maciças, dispostas uma atrás da outra, para ler, escrever e trabalhar. Os livros ordenados com primor. Um cheiro a história e mistério, un mise en scène de romance e imaginação. Janelas que escondem o Empire State Building, mais longe do que parece estar, e por onde entram os raios de luz que enchem as salas de encanto. Esta biblioteca é um poema e, provavelmente, o lugar mais inspirador onde já escrevi.



Não me admira que a Carrie do Sex and the City se quisesse casar aqui. Mesmo sabendo que o Mr. Big (o noivo) não compareceu ao enlace, parece-me  um cenário idílico para que nos deixem mais penduradas que um presunto, num vestido de noiva Vivienne Westwood.  
Por outro lado, mais especificamente por detrás da Biblioteca, o Parque. O parque do ringue de gelo no Inverno e dos pic-nics e das toalhas ao sol no Verão. O parque que tanto se cobre de neve como se descobre em folhas verdes e flores cor-de-rosa. O parque de surpresas, onde inesperadamente aparecem feiras e mercados, mas onde sempre há mesinhas redondas e cadeiras reservadas para ler, para escrever e para comer. São verdes, são coquette e estão sempre ali, à nossa disposição. Nada contra os típicos bancos do jardim, mas na era digital as mesinhas e as cadeiras resultam ser bastante mais cómodas.  Parece algo irrelevante, no entanto para mim é o que torna Bryant Park tão especial. Chegar, sentar, observar as pessoas na relva como se estivessem na areia. Comer um crepe de chocolate. Sentir o sol. Ler e escrever imbuída dessa aura nova iorquina, que não é só feita de caos e cimento.
Tudo isto para dizer que hoje escrevo desde a Biblioteca da Sagrada Família. Onde as escadas são de metal e os livros, os escassos livros que há, estão ordenados de pernas para o ar e de maneira aleatória, em duvidoso estado de preservação. Metade das prateleiras estão vazias, à espera não sei bem do quê. Talvez seja para ir ao ritmo da interminável construção da mesmíssima Sagrada Família.  As mesas para trabalhar são poucas, quase nenhumas, e parecem compactos do Ikea da coleção “mais feio e barato não há” que vão a jogo com as luzes brancas, ao mais puro estilo barraca de farturas. Aqui dentro é tudo cinzento e triste, não fosse pela internet grátis e estaria às moscas. 
Em baixo da biblioteca há o mercado municipal, o que explica o aroma a peixe. 
Não se vê a Sagrada Família pela janela, teria a sua graça, teria todo um charme e até mesmo lógica, porque está mesmo ali. Mas não, vamos só fazer janelas para as varandas do prédio da frente, que têm umas bandeiras da Catalunha e umas máquinas de ar condicionado muito giras. 
Nem sequer entra luz pelas janelas, porque está de chuva.
Não cheira a hstória (cheira mesmo a peixe), nem se sente romance ou imaginação e o único mistério por resolver é porque raio não há mais mesas e mais livros nesta biblioteca.
Mentiria se dissesse que não existe um pequeno parque ao lado da biblioteca. Existe, sim senhores! Com um lago castanho verdoso e caminhos arenosos cheio de cocós de cão. Mesinhas redondas e cadeiras coquette, nem vê-las.

Portanto hoje a inspiração, meus queridos, é o que por aqui se lê... 



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