Pequenos vícios

Poucas coisas me motivam tanto como montras de bolos cheios de chocolate, diante das quais me derreto em baba, a cair suavemente pela boca. Entre essas escassas coisas, estão prateleiras de livros. Não babo, é um facto. Mas perco-me na imensidão das lombadas, em busca de títulos que me agarrem, autores que não conheço e velhos amigos das minhas horas mais solitárias. Gosto de folhear, abrir páginas ao acaso, ler as notas biográficas dos autores e julgar minunciosamente cada capa. Coisa que, como sabem, nunca se deve fazer (mas toda a gente faz).  Depois de inspecionar todos os elementos, desde as novidades à literatura estrangeira, passando pelos romances históricos, a poesia, a ciência e ficção, e tudo mais que se me cruze no caminho, chego à conclusão de que quero comprar todos. Até mesmo os das capas mais duvidosas. É uma sensação que não experimento quando vou comprar sapatos ou roupa. A trabalheira que é descalçar, calçar, apertar, despir e vestir repetida e incessantemente, consome-me paciência. Ainda assim, no outro dia, perguntaram-me de que tamanho era o meu guarda-roupa porque cada dia aparecia com um vestido novo. Tenho mais livros que vestidos  (felizmente!), portanto podem imaginar. É uma atração fatal quase inata. Quando estava a aprender a ler deparei-me com os Lusíadas e decidi experimentar. Não percebi patévia. Mesmo assim, li uns quantos cantos. Com o passar dos anos, seguiram-se outras experiências do género, como os livros do meu pai sobre psicologia e a tese da minha mãe sobre (era sobre o quê mesmo, mãe?), digamos que era sobre números e que percebi ainda menos do que quando me empenhei nos Lusíadas por primeira vez. Era-me indiferente, tudo o que fosse formato livro tinha que ser aberto e explorado. 
Também tenho tendência a deixar-me levar por prateleiras de malas, porém,  as mais atrativas costumam ser também as mais caras, o que é um factor dissuador bastante potente.   
De maquilhagem já não sou tão fã, parece-me que estou a ver 50 produtos iguais alinhados com rótulos diferentes. Como as prateleiras de azeite, ou ervilhas, no supermercado.  
Em conclusão: as livrarias têm as prateleiras com o maior potencial de me levar à banca-rota. Vejo livros, todos juntinhos e arrumadinhos, e sou logo possuida por um incontrolável desejo, qual grávida em revolução hormonal. Porque há livros a 9.99€. Porque não vão gastar-se, nem sair de moda, nem deixar de servir. Porque ler não traz remorsos, como comprar mais uns sapatos e mais um vestido quando já temos o armário a colapsar.  Porque este ano morreu o Gabriel García Marquez e há que prestar homenagem. Porque andava há que tempos à procura daquela versão original, porque tinha saudades de ler em italiano, porque vi aquele livro recomendado num blog. Porque quando li o Principezinho não sabia francês, mas agora já sei. Bom, esse ficou para a próxima, de momento considero-me abastecida. Três livrarias e quatro livros é coisa para me deixar numa paz de alma, sabendo que posso ler furiosamente o resto do Verão. 
Entretanto, em dois dias, tal era a fome, já acabei o "Where'd you go Bernadette" (muito melhor o livro do que a capa).
E agora, qual escolher???


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