Terroooor

O professor percorreu a sala aluno por aluno. Um a um tivemos de apresentar o nosso género e a nossa logline, em meio minuto. Depois de nos ouvir debitar todos aqueles Óscares em potência,  o professor suspirou o  inconfundível “Hum...” que vem com a arrogância da sabedoria. Fitou-nos com um misto de satisfação e de patinhos, não percebem nada disto.
“Hum... interessante... nenhum de vocês vendeu um guião, no entanto ,ninguém está a escrever o género mais fácil de vender. Alguém sabe qual é?”
Entreolhámo-nos como patinhos que realmente nos sentimos e dissemos em uníssono: “Terror”.
O professor sorriu e abanou afirmativamente a cabeça, onde luzia um boné da New York Film Academy, nesse estilo corporate sport, tão americano.
“Porque os filmes de terror têm sempre um nicho garantido, há sempre um público que não falha nunca para ver os filmes de terror, não importa se são maus ou bons, aliás, quanto piores melhor, mais vendem!”
E eu tive um flash back das tardes com as amigas e as persianas da sala fechadas, a ver filmes de terror alugados no vídeo clube (sim, vídeo!). Das vezes em que tive medo de entrar na casa de banho por causa da mulher verde e morta na banheira do “Shinning”. Da ida ao cinema para ver “A casa de cera”, com a Paris Hilton. Adolescentes sedentos de emoção, desejosos de desafiar o mundo e, principalmente, de fazer coisas que os pais achem iditoas. Eis o público infinito e fiel dos filmes de terror. Não falha nunca porque os filmes de terror são uma componente tão natural da adolescência como as borbulhas, os amores para sempre que acabam em 3 meses e a aparição da menstruação.  
O professor discorreu sobre uma lista de conhecidos directores de cinema cujo primeiro filme foi um qualquer filme de terror ainda pior que A casa de cera com a Paris Hilton.
“Tenho a certeza de que vocês são todos génios e escrevem lindamente, mas comecem com um filme de terror, um assim mesmo ruim, só para entrar no mercado e depois podem escrever o que quiserem!”
Desde então decidi que o meu próximo guião (dito assim parece que escrevi vários, mas na verdade o meu próximo guião será apenas o meu segundo guião) seria um filme de terror. Ora bem, decidir é muito bonito e muito simples e muito inspirador. Decidi que vou fazer desporto todos os dias. Ótima e sensata decisão. Jamais cumprida.
Claramente, executar uma decisão é relativamente mais complicado que decidir.  
Só para começar a escrever o meu filme de terror, enfrento-me a dois problemas:
1-  Todas as ideias que tenho caem por terra porque, mais tarde ou mais cedo, apercebo-me que já fizeram um filme de terror assim. Se pensarem bem, escrever um filme de terror original nos dias que correrm, não ‘tá fácil.
2- Sou uma pessoa sensível. Uma pessoa que depois de ver um filme de terror não consegue dormir. Então eu tinha medo de ir à casa de banho depois de ver o Shinning, por amor de Deus! Começo a pensar em enredos de terror e... tenho medo! Para escrever um filme temos que o viver de verdade e entrar na pele dos nossos personagens. Mas eu não quero nada entrar na pele de um assassino psicopata nem viver uma tortura, um rapto, um roubo de rins ou uma experiência paranormal com espíritos malignos!!! Para mim, o terror suportável na minha vida  é ir à praia e constatar que, afinal, a depilação não estava tão bem feita como eu pensava; é ir ao supermercado às 6 da tarde e ver que só há uma caixa aberta; é querer matar o vizinho que não me deixa dormir; é começar a sentir um ardor a subir pelo corpo e descobrir que tenho 20 picadas de mosquito nas pernas; é abrir a máquina de lavar e encontrar lá dentro um dalmata em vez de um vestido branco... enfim, o terror do dia-a-dia.

Mas hoje vi isto e senti-me inspirada outra vez.



Contextualização ao português: 
Porque é que os filmes de terror são sempre em sítios sinistros como cadeias e hospitais? Eu quero um filme de terror no Pingo Doce!
- Limpeza ao corredor 13!
- Desculpe... mas não há corredor 13.
*música dramática*

Venha de lá esse filme de terror!!!

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