E se...

Era uma vez uma borboleta com asas quadradas, como as ideias das pessoas que não têm sonhos.
Mas eram asas com remoinhos de imaginação e cores de céu rasgado com estrelas cadentes, numa noite de Verão.
Eram asas com aroma de magia e algodão doce.
Eram asas tão grandes, que podiam abraçar o mundo, mas jovens demais para o saber.
Só não eram asas em forma de coração, como as das outras borboletas.
Por isso, a borboleta das asas quadradas, não se atrevia a voar. Saltitava, de desejo em desejo, para não se magoar.
E ao pôr-do-sol parava, para ver as outras borboletas voar, naquele alvoroço de alegria, naquele bater de asas extasiante, que deixa um rastro quente de fantasia pelo ar.
“Um dia vou voar!”, pensava. Mas esse dia nunca chegava.
E ela era feliz, sim, era feliz no seu jardim. Onde conhecia todos os recantos e encantos, onde era rainha e senhora, onde nada mau lhe podia acontecer.  
Mas não era verdadeiramente feliz, porque ali já tinha visto tudo o que havia para ver. Como uma bruxa, era capaz de prever cada dia o que ia acontecer. Porque acontecia sempre a mesma coisa.
Um dia, uma das suas flores perguntou-lhe:
- Oh Borboleta, tu não queres conhecer as nuvens e falar com o sol?
- Sim...
- Então porque é que não sais do jardim?
- Porque tenho as asas quadradas!
- E então, qual é o problema?
- Tenho medo de cair...
- E não tens vontade de voar?
Tinha! Tinha uma vontade de var tao imensa e tão constante que chegava a ser redundante. 
Com os nervos a vibrar no topo das suas pequenas antenas, subiu a flor e escolheu uma pétala, para ser a sua base de lançamento.
Lançou-se.
Lançou-se sem rede na escuridão do seu maior medo. Lançou-se ao desconhecido agridoce. Lançou-se à sorte de um destino indefinido, porque ainda não o tinha começado a escrever.
Caiu.
Lançou-se outra vez.
Caiu de novo.
Vezes sem conta voltou a lançar-se e vezes sem conta voltou a cair. Mas cada vez aguentava mais tempo no ar, suspensa pela enorme vontade de voar.
E cada segundo que passava imersa no céu,  compensava a caída que desintegrava as suas esperanças.
Inevitavelmente, chegou a vez de uma vez em que a borboleta não caiu. Uma vez em que a flor se despediu desde o chão e a borboleta voou, lado a lado, com as borboletas das asas em forma de coração. Voou rumo ao pôr-do-sol, sem reticências nem vírgulas mal paradas, numa linha assimétrica como o traço da perfeição, e com um par de asas quadradas.  





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