Supresa?!

Gosto sempre de ver Portugal na televisão espanhola.
Mesmo que seja a propósito de termos um ex-primeiro ministro no xilindró.
Aparece a bandeira das quinas de fundo e ouço frases em português por de trás do espanhol.
Símbolos e estímulos que deixam uma imigrante como eu comovida, principalmente a menos de um mês de voltar a casa para passar o Natal.
Nem me importa que as frases em português sejam proferidas pelo Sócrates, com aquela entoação nasal a tocar as barbas do irritante.
Também não tenho nenhum tipo de vergonha por ele ter sido preso, se alguém tem de ter vergonha é ele, que está preso.  A minha vergonha, guardo-a para coisas mais dignas, como passar o dia com um pedaço de espinafre entalado no meio dos dentes da frente.
Quanto muito, a vergonha pode alastrar-se às pessoas que depositaram nele o seu voto de confiança para comandar o país (o que também não é o meu caso), e ao Mário Soares (o que já é um caso perdido). 
Surpresa? Sim, alguma, ainda que antagónica.
Não me surpreende que José Sócrates esteja preso, afinal, o percurso socrático foi um descarrilar de fraudes em cadeia, salvo seja. Chapada na cara de lei, pisão forte em cima da sociedade. Faz-me lembrar uma canção brasileira, escrita pelo Vinicius, que começa assim:

 “Vocêêê abusooou, tirou partido de miiim, abusoooou
Vocêêê abusooou
Tirou partido de miiim, abusooou
Tirou partido de miiim, abusooou
Tirou partido de miiim, abusooou!”

Acho que estes versos resumen bem a situação porque foi, realmente, um abuso. 
Devia ter-se ficado pela licença ilegal do Freeport, pelo grau académico falsificado, pela perseguição e censura aos meios de comunicação, pelas suspeitas no caso do BES, pelo inexplicável desaparecimento de provas incriminatórias e pelas elevadas despesas de representação injustificadas . Que até aí não havia problema nenhum! Era peanuts, como diz o outro.
Mas não!
Precisava mesmo de mais fraudes fiscais, era uma questão de higiéne lavar mais dinheiro e já não podia viver sem aquela que foi a sua parceira durante tantos anos: a sedutora corrupção.
Portanto, não me surpreende que esteja preso.
O que me surpreende é que o tenham detido. Facto histórico. Notícia internacional.
O que me surpreende é que o tenham detido e ainda não tenha “desaparecido misteriosamente” nenhum juiz, jornalista ou polícia.
Eh pá porque assim uma pessoa quase, quase que acredita na justiça.
E isso sim, é uma agradável surpresa!

(Se amanhã prenderem o Pinto da Costa, o meu agnosticismo democrático cai por terra e converto-me numa crente devota do sistema judicial portugês).  



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