Crónicas de voo

No avião de Barcelona a Lisboa, calhou-me o assento B. Toda a gente sabe que os assentos B e E são os menos cotizados por serem os do meio. Mas é sempre assim: sempre que faço o check in com uma senhora vou parar ao meio, sempre que é um senhor tenho a janela ou o corredor.
Talvez seja só coincidência, talvez seja essa lendária solidariedade feminina, que até hoje nunca ninguém viu.
O caso é que, estando no meio, até nem estava mal, entre duas senhoras aparentemente normais. Lembro-me de uma vez em que estava no assento  do corredor e a senhora do meio começou a cortar as unhas dos pés. Não foi um espetáculo agradável de ver, nem bonito de cheirar.
Depois da descolagem o sol entrou pela janela e rebentou-nos as retinas a mim, e à do assento C, enquanto a da janela gozava a vista. Mas a do assento C fez para ali um teatro, uma tragédia grega, praticamente a tentar tapar os olhos com os cotovelos, que a da janela se sentiu constrangida, desceu a mini persiana da janela e pediu desculpa.
Melhor assim, é verdade. Mas não suficiente, porque a senhora do assento C não parava de se contorcer na cadeira, claramente incomodada por não ser tão confortável como o sofá lá de casa.
Tirei o computador da mala e pu-lo em cima da minha mesinha, momento em que ouvi um “Foda-se!” e uma reviravolta no assento C.  Foi a minha vez de ficar constrangida, sem saber como é que a podia ter incomodado. Terá sido o meu pé a roçar na sua bota sem querer?  Ou será que a manga do meu casaco encostou no cinto de segurança dela? É porque eu vou ver um filme e ela não? Não faço ideia. Mas se esta senhora é assim em plena véspera de Natal, nem quero imaginar como será o resto do ano.
O voo seguiu tranquilo e ela acalmou-se. Até que o hospedeiro de bordo cometeu um erro gravíssimo, imperdoável mesmo. Perguntou-lhe se ela queria uma sandes de peito de peru e alface, que estavam a distribuir como snack (GRÁTIS) a  todos os passageiros. Oh Meu Deus Santo Protetor da aviação! Como é que se lhe ocorre oferecer uma sandes que não é vegetariana! Como é que é possível que não haja uma opção vegetariana?! Não tem cabimento, francamente!  E ficou assim a fitá-lo, com os braços abertos e a fazer caretas, desagradável e enojada . Fosse comigo e ter-lhe-ia dito que podia tirar o peru e comer só o pão com a alface. Problema resolvido. Ou pagar o bilhete em primeira classe para ter mais opções de comida. Ou viajar com a Ryanair para ver o que é bom!
Posto isto, quando ela se agachou para tirar qualquer coisa da mala e vislumbrei, de relance, o bilhete de embarque, confesso que não resisti a espreitar para ver como é que se chamava esta pérola de pessoa.

Juro por todos os presentes de Natal que o que vou contar é verídico e que até então nunca tinha acreditado que os nomes pudessem ser reflexos das pessoas por quem chamam, mas a senhora chamava-se Calvário. 

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