Pesadelos da vida real

Desta vez passou-me ao lado. Arrepiou-me a espinha. Fez-me ir abrir o facebook a correr.
Tenho amigos belgas, mais precisamente em Bruxelas.
Quem acompanha o blog talvez se lembre de ouvir falar deles, desde os tempos do Erasmus.  Depois, quando vieram a Barcelona e, mais tarde, quando eu fui a Bruxelas.
Quando eu fui a Bruxelas o Bert foi buscar-me ao aeroporto. Aquele mesmo aeroporto. E quando entrei no carro tinha chocolates belgas escondidos debaixo do banco, à espera que eu os encontrasse.
Quando estávamos em Erasmus ele trazia sempre chocolates para toda a gente.  
Porque os belgas são assim.
O Louis (o belga que fala português) acolheu-me na sua casa e foi um host excelente e um  tour guide de luxo.
O Kris levou-me a uma das discotecas mais espetaculares que conheci, dentro de uma igreja.
Hoje, o Bert disse-me que parecia que estavam a viver o apocalipse.
O Louis disse que estava tudo um caos e que não conseguia ver as imagens por serem sítios que fazem parte do seu dia-a-dia.
E o Kris disse-me que agora o que a Bélgica precisava era de amor.
Pensar que os meus amigos podiam ter morrido hoje, foi triste. Mas saber que morreram de verdade os amigos, os familiares e os amores da vida de outras pessoas é ainda mais triste.
É sentir outra vez aquela revolta impotente, aquele sentido de que a vida é tão irrelevante e fugaz que nada do que fazemos importa, nada do que somos conta. Tudo pode acabar de repente, sem justiça nem razão de ser, ou de deixar de ser.
E amanhã vamos apanhar o metro para o trabalho com medo.
O avião das férias da Páscoa, vamos apanhá-lo a tremer e a olhar em volta desconfiantes, suspeitando que toda a gente é uma bomba relógio em potência.
Não sei se tenho mais medo de ter medo ou de acostumar-me ao medo.
Medo de escrutinar minuciosamente as pessoas ao me redor, em busca de vultos suspeitos, e achar que isso é normal.
Nova-York,  Madrid, Londres, Rússia, Turquia, Beirut, Paris, Bruxelas...
Tenho medo de que o terrorismo comece a ser um fait-divers, como cada vez que descobrem um político corrupto.
Tenho medo que um dia mandem Barcelona ou Lisboa pelos ares e as pessoas digam, já se esperava, como se fosse um jogo de futebol com um claro favorito.
Tenho medo de que fale a resignação em vez da esperança, não foram os primeiros e não vão ser os últimos, não há nada a fazer.  
Porque amanhã vamos apanhar o metro com medo e depois o avião a tremer, mas para a semana já não vamos pensar nisto. Lá para Abril, o choque, a revolta e as lágrimas, serão apenas lembranças em imagens perdidas nas redes sociais e nos jornais.
Até voltar a acontecer outra vez. Porque sabemos que vai acontecer.
E esse conhecimento é o que mais me assusta.  



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