Toda a gente tem um lado menos bom...

Muito provavelmente vou arder no inferno, pois desacatei todos os mandamentos que guiam o bom cristão. Principalmente no predicado do amor ao próximo e em toda a raiz da árvore genealógica que ramifica a bondade entre os nossos irmãos.
Incorri em pecado. Fui vil, vingativa e egoísta. Mas o pior, o pior é que não me arrependo.
Ainda assim, aqui escrevo a minha confissão em modo de penitência.
Ora lembram-se que eu estava a viver o drama das obras no apartamento ao lado, parede falsa com parede falsa? Pois é, um drama titânico que na semana passada começou dois dias seguidos às 8 da manhã.
Começar alguma coisa às 8 em Espanha é como em Portugal começar às 7. Não porque Portugal está uma hora atrás, mas porque aqui a vida começa às 10.00h que é quando abrem os comércios
Ou seja, decidiram acordar-me às 8 sem necessidade nenhuma e quase de certeza tropeçando na ilegalidade.  Vai daí poderiam ter sido acordares suaves, em que só tivesse de levar com o reggaeton e a bachata que eles gostam de ouvir, mas não. Foram acordares violentos, com o uso de martelos e de ferramentas eléctricas ruidosas das quais desconheço a nomenclatura.  Para mim todas as ferramentas eléctricas soam a “ME CAGO EN SU PUTA MADRE!”.
Então eu pergunto, era mesmo preciso começar a tirar paredes abaixo às 8 da manhã meus anjos?  Era? Não havia por aí nada para pintar, uma portazinha para limar, uns tijolos para cimentar?
 Não satisfeitos com isso, estenderam pelo corredor do nosso andar uma nuvem de poeira tal que eu pensava que o meu tapete da entrada tinha sucumbido. Afinal estava só camuflado.
Agora vem a parte que realmente me dá prazer contar.
Passava das 7 da tarde e o porteiro já se tinha ido embora. A partir dessa hora a porta do prédio fica trancada a chave. Ouço a campainha. Sim? Ah e tal sou das obras da casa ao lado...humf, pequeno esguicho de raiva.  Tinham-se esquecido não sei do quê e precisavam que eu abrisse a porta. E eu abri, sabendo perfeitamente que a porta não ia abrir porque estava trancada. Efetivamente, não abiu. E ele notou. Expliquei-lhe (com um sorriso malicioso entre lábios), que só abria com chave.
- Ah... então, vou ficar aqui à espera a ver se aparece algum vizinho que me possa abrir a porta...
O tom era triste e a cara, embora não a visse, adivinhava-a de cãozinho abandonado. O meu coração vacilou. Podia descer e abrir-lhe a porta. Pois podia. Ou podia continuar a comer a minha sandes de chouriço e queijo, sentadinha no sofá.
A vida está cheia de decisões de difíceis.
Infelizmente, eles decidiram começar a romper paredes às 8 da manhã em vez de ir pôr o parquet de madeira no chão ou os azulejos na casa de banho.
A vingança é um prato que se serve frio. Voltei para o sofá e acabei a minha sandes, carregando aquele sorriso malicioso entre dentes.

Portanto meus queridos, se for para o inferno vou com a alma refastelada e a bater palminhas. 

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