Em direto de um país que, agora mesmo, não se sabe bem qual é...

Diz que desde Sexta-feira, às 15.10h da tarde hora local, estou a viver na República Independente da Catalunha. Mas também diz que essa declaração é anticonstitucional e, portanto, continuamos a viver em Espanha. Diz que diz que disse e, entretanto, é como se estivéssemos a viver numa fronteira sem pátria, como se estivéssemos a viver ali no meio do Guadiana, entre Vila Real de Santo António e Ayamonte, sem saber se somos Espanha ou Portugal.
Boh… Antes de tudo, gostaria de apontar a falta de consideração e respeito por declararem a independência à hora da sesta, uma tradição milenar tanto em Catalunha como em Espanha, e aqui acho que estamos todos de acordo. 
Segundo, salientar que para uma campanha política que vai a reboque da “liberdade” e da “democracia”, fazer uma DUI (declaração unilateral de independência) soa a algo franquista, ou a um método contraceptivo. 
Terceiro, vamos então analisar o que é que mudou, não só desde que vivemos na República Independente da Catalunha, mas desde que andamos neste Carnaval, entre rumbas e castanholas:
- O meu estado legal não está claro: se a Catalunha é um país independente, mas não é reconhecido pela União Europeia como tal, o meu estatuto de imigrante comunitário fica sem garantias. Não estou particularmente preocupada, até agora as contas da luz e da água continuam a  chegar com normalidade, o router tem dado um sinal de Wi-Fi pouco satisfatório, mas confio que isso seja mais culpa da Orange que do Puigdemont.  
- Os Domingos de futebol, de praia ou de almoço com a família, passaram a ser Domingos de manifestação. Atualmente, as manifestações são a atividade domingueira com mais poder de convocatória em Barcelona, o que causa um problema para as pessoas que não se querem manifestar: não podem passar. Aliás, se vos escrevo agora é porque queria ir à praia mas não consigo passar, nem pela rua, nem pelo metro, nem pela porta de casa! Confesso que eu mesma participei, orgulhosa e emocionada, na manifestação do 8 de outubro pela União de Espanha. Achei que era preciso bater o pé e mostrar ao mundo em geral, e ao Parlamento Catalão em particular, que aqui não somos todos independentistas, nem pouco mais ou menos, nem com aldrabices na contagem das urnas.
- Acordo ao som de um helicóptero, vou adormir ao som de um helicóptero, estendo a roupa ao som de um helicóptero, faço a comida ao som de um helicóptero, lavo a loiça ao som de um helicóptero, faço xixi ao som de um helicóptero. Desconfio que estou a desenvolver uma patologia nervosa e que vou sofrer o resto da vida de Stress pós-traumático cada vez que ouvir um helicóptero.
- A última hora passou a ser a todas as horas, tanto que acho que faria mais sentido mudarem o nome para primeira hora, e assim também era alguma coisa diferente, porque de resto a notícia é sempre mesma: independência sim, independência não, Puigdemont, Rajoy e já quase não falam do Messi e do Cristiano, que pelo menos apresentam sempre penteados mais emocionantes.
- Aumentaram as discussões nos chats do whats app, nos grupos do facebook, nos comentários do instagram, nos cafés, nas ruas, nos jogos de futebol, nos jogos de basket… se isto fosse no Brasil andava toda a gente à batatada, mas como é no 1º mundo limitam-se a bloquear os “inimigos” nas redes sociais.  
- O Ibex despenhou-se de tal maneira que parecia um suicídio, mais de 1.000 empresas responsáveis por 40% do PIB catalão puseram-se na alheta, o investimento estrangeiro prefere investir na Islândia do que em Barcelona,  a ocupação hoteleira está pelas ruas da amargura, os produtos catalães estão a sofrer bloqueios, o comércio está a vender menos do que na crise, seja a loja dos carros de luxo, seja a loja de máscaras e acessórios, que este Halloween em vez de contratar trabalhadores extra, teve que reduzir horas aos empregados. Ainda assim, os jovens e os reformados que gritam "Independência" a pleno pulmão, parecem não entender que eles vão ser os primeiros prejudicados, os primeiros a serem despedidos, os primeiros a não encontrar emprego e os primeiros a verem as suas parcas pensões reduzidas, além de um aumento de impostos massivo que nos cairá em cima a todos. A única indústria que está em plena ascensão é a das bandeiras, superando até mesmo os recordes de venda de quando Espanha ganhou o mundial de futebol!
- Perdi por completo  a esperança no bom senso e na boa vontade dos políticos, depois de ver que o Parlamento Catalão atropela a lei e a maioria (que costuma ser uma coisa importante em política), e que o Governo Central atropela o Parlamento Catalão, empenhando-se a fundo em alastrar a tensão social que nos deixou à beira de uma guerra civil, em vez de apagar o fogo.  Já não vou a mais manifestações, já não discuto com mais gente, que venham os tanques de Rajoy pela Rambla e que os desocupados das CUP se sentem à frente deles, para depois se queixarem de que os atropelaram. Matem-se e esfolem-se vivos, mas deixem-me viver em paz.  

Não sei bem o que é que vai acontecer nos próximos dias, hoje a notícia de última hora foi que o Puigdemont fugiu para a Bélgica, tudo indica que para pedir asilo político, enquanto o Governo central cessou todos os cargos do governo Catalão e destituiu o chefe da polícia local, os Mossos d’Esquadra.  


Mas olhem, já sei do que é que me vou mascarar no Halloween e tenho o disfarce quase pronto, portanto estou tranquila. O importante é termos as nossas prioridades bem definidas! 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O síndrome de Bridget Jones

Já cá estou outra vez, desculpem a demora...

Aproveito o 8 de Março para dizer que as mulheres deviam ganhar mais do que os homens