Isto parece as eleições em Angola!


2 de Outubro de 2017: Barcelona continua em Espanha.


O que aconteceu ontem aqui foi o que era esperado: uma triste palhaçada. As pessoas mantiveram-se firmes na sua convicção de votar e o governo central manteve-se firme na sua proibição, demasiado firme diria eu, já que mandou a polícia distribuir porrada  a torto e a direito, invadir escolas, roubar urnas, enfim, fazer o maior ridículo possível. Uma atuação vergonhosa que só reforça ainda mais o sentimento independentista e transforma o governo catalão em vítimas oprimidas na luta pela liberdade. Porque se até agora não tinham razões concretas para justificar uma suposta repressão, desde ontem têm toda a razão do mundo. Rajoy, que assim nos faz duvidar se ele mesmo não será também independentista, deu-lhes vários argumentos em imagens cheias de sangue, altamente exploradas pelos meios de comunicação. Acrescentar que também não foi nenhum massacre, que eu saí à rua e não vi ninguém ferido, estava tudo aparentemente normal, e que todas as pessoas que conheço que queriam votar, votaram sem problemas nem lesões. No entanto, o facto de não ter sido um massacre e de a polícia não ter batido em precisamente todas as pessoas que foram votar, não anula que, efetivamente, os votantes foram agredidos e foram reprimidos de forma lamentável. E agora quem é que os cala?

Obviamente, não vão desaproveitar esta oportunidade: a declaração da independência está prevista para os próximos dois dias, com base num referendum sem nenhuma credibilidade. Saíram dali uns números que não sei como é que os contaram, porque tiveram urnas roubadas, sistemas informáticos sabotados, pessoas a votarem duas vezes e um censo da população que ninguém sabe onde o foram buscar. O resultado deste referendum vale 0, não só porque foi ilegal, mas porque é completamente impossível calcular números verdadeiros. Ainda assim, de acordo com as contas criativas da Generalitat, só votaram 2 milhões de pessoas, e digo só porque aqui somos 7 milhões de pessoas no total, das quais podem votar 5 milhões, de acordo com o censo que, repito, não se sabe de onde desencantaram. Portanto, estes 90% que ontem votaram que sim (pelas contas sem contar da Generalitat já que entre o sim, o não e os votos em branco, ora somam mais de 100% ora somam menos), representam aproximadamente 38% da população  - dados apresentados pelo El País. Nunca fui boa em matemática e não sou doutorada em política, mas estou convencida que um 38% está longe de ser uma maioria e está a anos luz de ser uma razão legítima e democrática para que se declare a independência da Catalunha. Continuamos na mesma que todos os outros anos, como já tinha referido aqui no blog há umas semanas: a maioria da população da Catalunha não quer ser independente. É um facto incontornável, por muitas bandeiras que apareçam na televisão e por muito que a Generalitat manipule as percentagens. Os independentistas são uma minoria. Porém, são a minoria que está no poder e fazem as suas próprias verdades, tanto faz se as pessoas puderam votara ou não, nem como se contaram os votos nem se, efetivamente, a grande maioria da população não foi votar. Eles iam sempre ganhar. Olha que giro, parece as eleições em Angola!

Chegados a esta situação extrema, quando decidirem declarar a independência, porque é algo eminente, a única coisa que posso imaginar são tanques a tomar as ruas e a polícia a invadir o parlamento catalão, como uma verdadeira ditadura. Não vejo outra solução e se por um lado não concordo com a repressão violenta do governo central, por outro, também não é justo que se declare a independência com base num 38% contado com os dedos das mãos.

Não sou contra o referendum pela democracia e as pessoas que querem expressar a sua opinião. Sou contra o referendum pela independência e as pessoas que querem impor a sua opinião.

Não sou a favor da independência por não gostar dos catalães ou por me sentir espanhola, como é que eu me vou sentir espanhola se sou portuguesa e brasileira? Como é que eu não vou gostar dos catalães se vivo aqui há 9 anos? Não sou a favor da independência, primeiro porque até agora nunca me tinha sentido reprimida (muitas gracias Sr. Puigdemont!) e, segundo, porque não vejo no processo independentista nenhum benefício económico nem social. Pelo contrário, vejo uma deterioração das condições económicas, sociais e comerciais. E vejo uma manobra política para controlar a Catalunha de forma “unilateral”, escondida atrás da poesia da palavra democracia.

Estou exausta de explicar-me e justificar-me e cansada de viver nesta instabilidade e tensão político-social, com as pessoas divididas e enraivecidas, e sem saber em que país vou acordar.


Deixo aqui este excerto publicado por El Pais e assino por baixo: 





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