Em cena no teatro: "Uma morte anunciada"

Há duas coisas que me partem o coração: não poder comer um frasco de Nutella inteiro porque dá dor de barriga e ver salas de teatro meio vazias. Sendo que a parte que está meio cheia tem uma idade média superior a 50 anos o que quer dizer que, continuando assim, daqui a umas 3 décadas as salas de teatro vão estar completamente vazias e, muito provavelmente, fechadas.
Digo eu, que não nunca fui boa a matemática, mas parece-me um cálculo lógico.
Lembro-me de ir ao teatro desde que me lembro de me lembrar das coisas. Mas não me lembro se nesse então havia mais gente, o que me lembro mesmo é de uma carruagem em forma da abóbora a descer do teto quando o meu pai nos levou a ver a Cinderela. Foi um momento mágico na minha vida!
O que eu sei é que hoje em dia o fenómeno da desocupação do teatro ocorre tanto em Portugal, como em Espanha.
No Natal fomos ver a Revista do Parque Mayer e acho que havia mais gente no palco a atuar e a dançar que gente sentada no público.
O Parque Mayer que foi um dia considerada a “Broadway” de Lisboa, um poderoso tubo de escape à ditadura, agora está praticamente em ruínas e o Ministério da Cultura ajuda tanto como o Salazar ajudava.
No Domingo fomos ao Teatre Apolo, também uma das salas mais antigas de Barcelona, ver o musical Rouge Fantastic Love, que conta uma história de amor na belle époque, entre um jovem anarquista e uma estrela de cabaré, com Touluse Lautrec pelo meio e um maestro de cerimónias muito peculiar. O guião é cativante, o vestuário está impecável, os atores são ótimos e os protagonistas cantam que é um verdadeiro encanto. Os músicos põem em cena uma banda sonora espetacular, com adaptações de grandes clássicos de Édith Piaf, Elton John ou Madonna. Uma pessoa passa o espetáculo todo imbuída no ritmo a trautear as canções. Isto é, uma pessoa que conheça as canções da Madonna, do Elton John e umas outras mais recentes como a Lady Marmelade by Pink, Christina Aguilera, Maya e Lill Kim. Duvido, seriamente, que alguma das senhoras de elevada longevidade que compunham a grande maioria da audiência, tenham conhecimento de qualquer música da Lill Kim, ou de que Lill Kim é o nome de uma artista e não de uma lojinha do chinês. Do mesmo modo que duvido que tenham entendido os passes em inglês. E aqui está o que eu não entendo, este musical, e a maioria dos espetáculos a que assisto, são coisas contemporâneas, animadas, com referências atuais, muito mais dirigidas a um público jovem do que a um público sénior.
Não obstante, dou por mim no top 10 das pessoas mais novas das salas de teatro. Sendo que eu já somo mais de duas quinzenas de anos em cada perna.
Depois chegamos à Broadway em NY e é um bafafá para conseguir um bilhete, o mais barato rondando os 100 dólares,  porque está sempre tudo esgotado todas as noites.
Aqui os bilhetes custam 40€, às vezes menos, e está tudo às moscas. Claro que em NY as produções artísticas de teatro, musicais e espetáculos em geral, são mega magníficas, também há muito mais gente que me Barcelona e Lisboa juntas e as pessoas não desafiam os meses com menos de 1200€ na carteira.

Mas os artistas aqui têm mais amor à arte, porque trabalham quase de graça e isso devia ser reconhecido e recompensado pelo público, mas principalmente pelos respectivos Ministérios da Cultura, espanhol e português, que deveriam ter o teatro como principal prioridade. Mais subsídios para os espetáculos, incentivos para os espectadores e ajuda na promoção das obras. Não é assim tão difícil, não estou a pedir que escrevam o próximo prémio Nobel da Literatura, estou só a pedir que, por favor, não deixem o teatro morrer. 


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