Aproveito o 8 de Março para dizer que as mulheres deviam ganhar mais do que os homens




Gostava mais do dia da mulher quando tinha 14 ou 15 anos, porque nessa altura significava ir jantar com as minhas amigas na mesa redonda do restaurante Chinês da baixa de Faro, ali ao final da Av 5 de Outubro, ao lado do parque de estacionamento.
Não sei se ainda existe tal restaurante, nas minhas memórias está sempre presente, assinalando essa data especial que é o 8 de Março.
Quando se tem 14 ou 15 anos, não se gerem grandes orçamentos, portanto, o Chinês era uma opção económica e divertida, porque tínhamos sempre a mesa redonda. Quando se tem 14 ou 15 anos também não se sai muito a restaurantes, no nosso caso éramos mais de ir ver jogos de basket, e por isso a mesa redonda era toda uma sensação!
Foi com os jantares do dia da mulher na mesa redonda do restaurante Chinês da baixa de Faro, que assimilei o dia em si, que o comecei a “celebrar” e que desenvolvi um carinho especial por ele. Era uma das minhas noites preferidas do ano, perdendo apenas para o meu aniversário e para a passagem de ano.
No fundo, era uma desculpa maravilhosa para convencer os meus pais a deixarem-me “sair à noite”, e para me divertir com as minhas amigas.
Porque, felizmente, com 14 ou 15 anos eu não notava nenhum tipo de desigualdade de género. Com 14 ou 15 anos, eu não sabia que os cargos top das grandes empresas estão reservados para os homens, não sabia que a minha imagem ia ser sempre mais importante do que o meu currículo, não sabia o que era o assédio sexual nem a violência doméstica, não sabia que as mulheres em idade de engravidar tinham que pagar seguros médicos mais caros que os homens com a mesma idade, nem que eram descartadas para possíveis trabalhos por poderem ficar grávidas.
Com 14 ou 15 anos, ainda não me tinha apercebido que quase todos os desportistas famosos são homens, que não havia uma única mulher em todo o capítulo de história de arte do século XX que andávamos a estudar na escola, que a esmagadora maioria dos Presidentes e Chefes de Governo são homens, enquanto 90% dos trabalhos precários e temporários são desempenhados por mulheres.
E como o orçamento a que tinha acesso era definido e fornecido pela minha entidade paternal, eu não contemplava que o meu salário ia ser inferior ao de um homem num cargo equivalente, na mesma empresa. Esta singela “diferença” revolta-me particularmente, porque depois de pensar várias vezes no tema, cheguei à conclusão que as mulheres têm muito mais despesas do que os homens e, havendo uma diferença salarial, deveria ser ao contrário.
Chamem-me sufragista radical, mas eu acho mesmo que o justo seria as mulheres receberem salários mais elevados do que os homens. Ora senão vejamos: nós temos de comprar soutiens, tampões, pensos higiénicos, maquilhagem que inclui mais de 100 produtos entre bases, pós, sombras, eyeliner,  batons, gloss, pinceis, blushes, máscaras, iluminadores, desmaquilhantes  (etc, etc, etc), o verniz, o protetor de verniz, o fixador de verniz e a acetona, cremes para as estrias, cremes para a celulite, cremes para as rugas, o alisador de cabelo, mais o outro que faz os caracóis, sem contar que as nossas idas ao cabeleireiro são extremamente mais caras porque, regra geral, as mulheres têm o cabelo mais comprido do que os homens.
Os homens têm lá ideia do rombo na conta bancária que é entrar numa Sephora ou numa simples farmácia, sendo mulher!
A lista poderia continuar por subcategorias de acessórios e vestuário como saias, vestidos, jumpsuits, calções, calça, meia-calça, e por ai além, quando os homens têm apenas calças e calções, e quando muito um kilt!
Os homens não tomam a pílula, não andam de salto alto (e o preço dos sapatos de salto alto senhores!), não têm que depilar o bigode.
Ser mulher é muito mais caro do que ser homem, mas temos de viver com muito menos: menos dinheiro, menos oportunidades, menos consideração, menos respeito, mais descriminação e mais preconceito.
Por tudo isto, eu gostava muito mais do dia da mulher quando tinha 14 ou 15 anos e o 8 de Março significava apenas um jantar divertido com as minhas amigas, cheio de fofocas, gargalhadas e confissões de adolescentes que não sabiam o que as esperava lá fora.
Hoje em dia, significa que todos os dias em todo o lado, as mulheres têm que continuar a lutar pela igualdade de direitos humanos, até conseguirem mudar o mundo.
Um mundo que, por muito redondo que seja, é bem menos divertido que a mesa redonda do restaurante Chinês da baixa de Faro.

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